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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Desapego II



Já comentei sobre a dificuldade em trabalhar o desapego de um ente querido, mas eu particularmente sofro muito mais para trabalhar a perda de pessoas vivas.
Enquanto o falecido efetua a passagem e fica claro em minha cabeça que não  há volta e que nada pode ser efetuado para a transformação dessa realidade, uma pessoa que propositalmente abandona minha vida deixa como legado a esperança de um retorno. E esperança, como todos sabemos, não morre.
Mesmo quando acabam-se todas as possíveis e imagináveis chances, a esperança permanece, nem que seja em algum mundo fictício de improváveis circunstâncias criadas em nossa própria mente, ela teima em remanescer.
Se eu gosto muito de alguém a ponto de me permitir ser cativado, de querer cativar, de alimentar esperanças e fomentar planos conjuntos, então certamente ou estou amando, ou estou flertando com esse sentimento já assanhadamente.
Quando amamos alguém, queremos essa pessoa próxima. Próxima de nossos sentimentos, de nossas experiências, de nossa companhia. Queremos trocar vivências e sensações. Compartilhar momentos e pensamentos, formar opiniões e produzir ideias. Queremos uma vida de coisas, um universo infinito de possibilidades, uma estrada longa e firme a ser percorrida, mesmo que sinuosa.
Mas se essa pessoa decide sair de nossa vida, a estrada some nos deixando absolutamente sem chão. Somos anestesiados por sentimentos fortes e contraditórios. Nosso coeficiente emocional sucumbe.
Imagine-se na seguinte situação: Você encontrou a tampa da sua panela; o beijo é o melhor do mundo; o cheiro é irresistível; o sexo é inacreditavelmente bom; a química lhe deixa sem sono, sempre em 220; as conversas lhe interessam, lhe instigam e principalmente fluem divertidamente; a maneira de pensar lhe encoraja e desafia.Então essa tampa não lhe considera a panela ideal e simplesmente vai procurar outro conjunto.
Considere que você não quer, absolutamente, privar-se desse sentimento e mais ainda, não pretende desistir da pessoa que pra você é o amor de sua vida. Nesse caso o correto é tentar e correr atrás. Mas então a tampa lhe informa que não há o que possa ser feito, a panela não lhe interessa hoje, e não lhe interessará no futuro, e lhe sugere acintosamente que vá procurar a sua tampa.
Todo mundo tem uma dose de autopreservação e amor próprio, mesmo que em alguns seja bem pouco. E nessas, apesar da pequena quantidade, é suficiente para fazer recuar e “desistir”. E aí entra a necessidade de trabalhar o desapego.
O amor de sua vida está alí, lívido e lépido, e você não pode mais beijá-lo, tocá-lo, senti-lo nem ter todas aquelas maravilhosas experiências que tinha. Independente se por uma falha sua ou se simplesmente o sentimento acabou unilateralmente, ou mesmo nunca foi  recíproco. O que se faz?
Quem tem um Q.E. maduro, trabalha o desapego de forma sábia e construtiva, mas a grande maioria das pessoas, mesmo que tentem fazê-lo, armazenam em um cantinho especial a esperança de quem sabe, talvez um dia, a tampa perceba que você é a panela ideal e então retorne.
“Quem aqui amigos” nunca remoeu um sentimento esperando que a outra pessoa se arrependesse e retornasse? E normalmente a pessoa não retorna. Mas ela está ali, viva. Não é igual a pessoa que faleceu e que seu cérebro entende que jamais retornará. Sua mente insiste em procurar soluções para essa situação, arranjar uma maneira de contornar a adversidade e conseguir finalmente ser feliz com a pessoa amada.
Essa presença viva de quem se ama e a certeza de que existe uma chance de reencontro é o que faz maníacos assassinarem quem amam por não saberem lidar com a dor da perda. É o que faz pessoas suicidarem-se, desesperarem-se e cometerem devaneios.
Eu preferiria que as pessoas as quais amei e que me abandonaram tivessem morrido. Seria mais fácil aceitar uma morte do que a rejeição. Mesmo sabendo que foram essas rejeições que me fizeram crescer e amadurecer.Tenho esses arrependimentos tão arraigados em meu peito que sinto um frio na barriga ainda quando lembro de algumas coisas de minha coleguinha de primeira série.
Carrego comigo o peso de cada amor que tive. Os verdadeiros amores nunca foram esquecidos por mim. Apenas comecei a amar outras pessoas mais intensa e profundamente depois. Mas asseguro-lhes, um amor não substitui o outro e o desapego é algo que trabalho diariamente em amplo aspecto.
Recomendo a quem não faz, que o exercite.

Publicado em: A Tribuna Regional no dia 28.07.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Zona de conforto

Uma vez vi uma imagem de um cavalo amarrado a uma cadeira de plástico. E ele ficou parado lá, como se estivesse preso a algo e não pudesse sair. Sua limitação o impediu sequer de tentar puxá-la, e então ele lá ficou, aguardando o dono ou outra pessoa qualquer que viesse libertá-lo.
Quando vi aquilo senti meu estômago revirar-se. Fui empático e pensei em quantas e quantas vezes em minha vida estive no lugar daquele cavalo. Pensei também imediatamente em uma boa porção de gente que se encontra atualmente em posição semelhante.
Como é curioso observar-nos como se estivéssemos em um jogo de 3ª pessoa. Quanta coisa está na nossa frente e não vimos, ou por nossas viseiras que impedem que enxerguemos para o lado e nos forçam a olhar apenas para frente, ou pela nossa compreensão limitada de vida e de situações.
O exemplo do cavalo é clássico. Ele está preso apenas à sua mente, pois a cadeira é tão leve que ele poderia tranquilamente passar o resto da vida carregando-a a todos os lados sem problemas. Ou até a corda poderia nem estar amarrada, e sim apenas enrolada. Ou mesmo a cadeira poderia quebrar-se facilmente ao primeiro puxão. Mas ele sequer tenta, e consequentemente fica ali, parado, esperando...
Quanta gente prefere ficar presa a uma cadeira de plástico a quebrar a barreira da zona de conforto e usufruir de sua vida a todo pulmão aos galopes? Quanta coisa deixamos de fazer por nos acharmos incapazes ao menos de tentar? Quantas vezes ficamos amarrados apenas a uma condição moral ou psicológica, mas de base duvidosa ou no mínimo questionável?
O que nos leva a sequer tentarmos sair?
A resposta é Zona de Conforto, e apenas duas coisas lhe tiram dela. Mesmo que essa zona não seja confortável no sentido literal da palavra, ela nos acorrenta de forma a impedir-nos sequer de tentar. Quanto às duas coisas, são:
-Uma paixão muito forte, daquelas arrebatadoras e avassaladoras, que entram em nossa mente e coração feito um furacão, "esculhambando" toda a casa e nos deixando sem chão.
-Uma decepção muito grande, de "cair os butiás do bolso"; de trocar de ponta; de perder o rumo, a fé e a esperança; que nos faça perder a crença no que quer que seja, principalmente quando acompanhada de rancor, raiva e mágoa.
Quando essas coisas não acontecem, somos sugados ao conformismo paradoxal do cavalo e a cadeira.
Precisamos arrebentar essas amarras normalmente sociais, excomungar o conformismo de nossas entranhas e nos forçarmos a enxergar além da curva, da viseira, da cadeira. A vida é muito mais do que apenas a situação momentânea. A vida é um oceano e as opções são gotas que podemos escolher nas esquinas dos momentos. Mas para isso é necessário estar disposto a abrir mão de conformismo. É basilar que haja inquietação no espírito, comum em arianos como eu.
Experimente expandir sua visão em todas as situações de seu dia, desde o momento que vai abrir um pinhão, com faca, com a boca, começando por uma ponta ou por outra, rasgando no meio ou tirando as camadas da casca até uma complexa discussão matrimonial/familiar. Os resultados são assombrosos.

Publicado em: A Tribuna Regional no dia 14.07.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Ignorância não é uma opção


Gosto de assistir ao noticiário durante o almoço. Adquiri o hábito por estudar a noite ao longo de muito tempo.
Como esse é um dos canais mais rápidos de se ter uma visão geral da fotografia atual da sociedade a qual pertencemos, considero como um resumo do contexto.
Esses dias, estava almoçando entre amigos com a televisão ligada e, como sempre, de ouvido ligado nas noticias no intuito de me atualizar. Ocorre que, mais uma vez, ouvi uma expressão que já é lugar comum para muitos, e que me fez, novamente, pensar a respeito.
Mais de uma das pessoas que estavam comigo manifestaram insatisfação em ter que ouvir a respeito das atrocidades, crimes, tragédias e outras coisas ruins que todos os dias informam nos meios de comunicação.
Tentei argumentar alegando que o fato de não ouvirmos, não impede que essas coisas aconteçam, mas fui surpreendido com a afirmação de que, se não soubermos, não ficaremos tristes.
Depois disso fiquei "matutando". Mas então, o fato de eu não ler jornais, nem assistir televisão ou ouvir rádio, ou até mesmo me isolar de qualquer canal que possa trazer esse tipo de informação acalentará meu coração no que concerne a tristeza pelos infortúnios ocorridos?
A ignorância não é uma opção. O fato de eu ignorar esses acontecimentos não impedirá que eles ocorram ou tampouco evitará que eles me afetem, nem mesmo indiretamente. A violência continuará existindo e as mortes continuarão ocorrendo.
A diferença é que não terei mais o valioso e necessário conhecimento para evitar que isso ocorra comigo.
A alienação quanto ao que ocorre no mundo em que vivemos não é mais admitida na era da globalização. Precisamos estar atentos, vigilantes, cientes e mais ainda, termos uma opinião formada sobre o que recebemos, pois o que faremos com isso será de relevância incomensurável para a sociedade como um todo.
Precisamos abandonar esse tipo de atitude negligente de avestruz, afinal de contas, o buraco nunca protegeu seu corpo.
Talvez em âmbito pessoal, no que se refere a relacionamentos interpessoais, no trabalho, com cônjuges, a ignorância seja uma bênção e o ditado "felizes dos ignorantes" vija, pois muitos preferem acreditar numa fidelidade ilusória a ter que encarar a triste verdade da perfídia.
Eu afirmo que o caminho da felicidade passa, necessariamente, pela verdade, pois defendo que a ignorância não é uma opção na vida daquele que pensa inteligentemente.
Agora, se a busca é por uma fuga da realidade dura, então enganar-se é uma opção a ser considerada com relevância, pois como citei em um texto anterior, as pessoas não estão preparadas para verdade.



Publicado em: A Tribuna Regional no dia 07.07.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Teoria dos Tomates


 Tenho uma teoria sobre como as pessoas se comportam quando encerram um relacionamento.
Como já citei várias vezes, adoro prestar atenção nas pessoas, mania provavelmente de criança que ainda não abandonei. Sabe quando alguém passa e a criaturinha filha olhando descaradamente, sem nem disfarçar? Pois é, assim sou eu no dia a dia, depois de adulto.
Venho reparando já há algum tempo como as pessoas escolhem tomates no supermercado, ou em qualquer estabelecimento que os venda, e percebi que muitos ao identificarem um estragado ou em ponto de maturação diferente do desejado, colocam-no delicadamente em algum canto e continuam a procurar algum de seu agrado.
Já outras pessoas quando identificam algum que não se enquadra no seu critério, jogam-no para um canto não se importando se ele vai bater, machucar, estragar ou de que forma vai ficar para a próxima pessoa que vier eventualmente comprá-lo e consumi-lo.
Essa postura de descaso com o tomate - e uso esse exemplo, pois é um dos mais frágeis se comparado a laranjas ou afins - é a mesma postura aplicada pela pessoa na vida. Os humanos são lineares em seu comportamento. Se quando não quero um tomate, jogo-o fora de maneira descuidada ou mesmo negligente e desrespeitosamente, certamente o farei com as pessoas que eu descartar de minha vida, com empregos que eu sair, com tudo que eu trocar, até com roupas.

A maneira como trato um simples legume denuncia minha postura perante outras pessoas. É obviamente evidente que se eu não cuido de um tomate quando o jogo para um canto é porque eu não estou preocupado com o próximo consumidor. Seguindo esse raciocínio, quando eu acabar um namoro, atirarei o "produto" que não quero mais em um canto sem me preocupar com o "outro consumidor", mesmo que esse seja a sociedade.
Então tenho como entender o comportamento de uma pessoa e o respeito que ela tem pelos outros apenas visualizando-a escolher tomates.
Afirmo com propriedade, pois tive a coragem e a cara de pau de perguntar para muitas pessoas quando as analisava como elas se comportavam quando acabavam um relacionamento, independente se conhecidas ou não, e algumas me olhavam como se eu fosse um ET.
Experimentem, façam o teste, autoavaliem-se enquanto escolhem tomates e sejam honestos com a resposta quando se perguntarem como agem com as pessoas. Não falha.

Publicado em: A Tribuna Regional no dia 30.06.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Desapego: Parte I



Muitas oportunidades são valiosas para quem gosta de avaliar o comportamento pessoal. Alguns meses atrás meu chefe, em uma reunião, contou o que aprendera em um velório e que poderia se aplicar à empresa. Quando isso aconteceu fiquei pensando com admiração na capacidade que algumas pessoas têm em aprender nas ocasiões e momentos mais inusitados possíveis.
Em abril do ano passado perdi um irmão. Em Junho desse, outro.Em maio, um dos meus melhores amigos perdeu o pai, abruptamente, sem tempo de preparo algum.
Quando um ente querido está enfermo e a passagem é certa, temos tempo de nos prepararmos, de nos despedirmos, de falarmos o que sempre quisemos e protelamos, enfim, temos a derradeira oportunidade de consumar alguns atos que eventualmente venhamos postergando. Mas quando é de "sopetão", um pedaço de nós é tirado de forma agressiva e rude, machucando como um corte profundo incicatrizável.
Com doença fica mais fácil nos resignarmos, aceitarmos e trabalharmos o desapego. Aliás, a palavra de ordem em falecimento é justamente essa, trabalhar o desapego. Principalmente por vermos a pessoa querida sofrendo e por sabermos que o fim da dor é o caminho necessário. Quando entendemos o que a morte significa, sabemos que nossos pais um dia morrerão; nossos avós, nossos irmãos mais velhos, nossos tios... Mas ainda assim, irracionalmente nunca estamos preparados para o momento derradeiro.
O motivo? No fundo a resposta correta é que somos egoístas demais para permitir que as pessoas que amamos evadam de nossa vida antes de nós. Independente se a ordem da vida seja essa. Quem inventou essa droga de ordem afinal? Quem disse que eu preciso segui-la?
Queremos passar ilesos dessa dor por nossa existência mundana. Mas somos pequenos e limitados demais para entender a magnitude do universo e o sentido de cada acontecimento e sua ordem. Pior ainda ficamos quando temos que enterrar um filho ou um irmão mais novo. Mas se analisarmos fria e logicamente, voltamos ao egoísmo. Todos tem sua hora, então quem disse que minha vontade de que fosse depois de mim é a correta frente a infinitude de conhecimento da existência universal?
Independente de religião, todos sabemos que a hora da partida chegará para todos, então como bons egoístas e apegados que somos, queremos que nossos filhos vivam muito e além de nossa existência, bem como os parentes mais novos e ainda não aceitamos também que os mais velhos partam, pois a dor da saudade é grande demais. Afinal de contas, eu não terei mais a companhia da pessoa querida, eu não terei mais a oportunidade de vê-la, eu não terei mais a chance de aprender ou falar com ela, eu não... EU.
É nessa hora que precisamos aprender a trabalhar o desapego, a abandonar o "eu" e entender que o curso natural é esse e que todos tem sua hora, independente se EU acho que o tempo estava errado ou curto demais, a hora de cada um é imutável, e só algo muito acima de nós entende.
Esse é um momento de resiliência, de fé, de crença na transcendência, de força. Mas também é um momento de felicidade ao vermos os parentes queridos próximos, de termos amigos e pessoas que amamos nos consolando e nos apoiando.
É um momento onde eu, quando sinto com toda a empatia do meu coração, sofro junto com meu amigo e minha família, lastimo não poder enfiar a mão em seus corações e arrancar aquela dor a unha e infectar o meu para que assim possa diminuir o fardo de quem quero bem. É o momento em que lastimo não poder materializar todo esse pesado e triste sentimento em uma cruz pesada e postar-me ao lado de quem está sofrendo e carregá-la junto, aliviando-a e acompanhando em tão delicado e particular momento.
E embora nada disso possa ser feito, o simples fato de estarmos ali, ao lado, apenas junto, ou chorando junto, falando besteiras, até mesmo o que não deveria ser dito, ainda assim, estamos fazendo uma diferença permanente, estamos escrevendo em pedra e consolidando algo que jamais será apagado. Construindo uma ponte maciça e larga, de mão dupla e que nos diferenciará de um conhecido.
Estamos aprendendo em um velório. Amadurecendo como pessoas. Consolidando amizades. Entendendo a força e a necessidade de trabalhar o desapego e o egoísmo. Enfrentando a dor da perda e nos obrigando a sermos fortes.
Meus sinceros e profundos sentimentos à quem, como eu, perdeu um ente querido recentemente.

PS: Aproveito a oportunidade para agradecer o carinho de todos que enviaram palavras de conforto pelo celular, facebook, orkut, skype, msn, twitter, e-mail, bem como aos que ligaram, e aos que desconsideraram meu conselho de nao ir ao velório entendendo que minha preocupação era evitar terem que presenciar um ambiente tao triste, preocupando-se mais com meu conforto do que com minha empática preocupação. Especial aos que se fizeram presentes de coração além de qualquer outro canal como a familia Finger e Brustolin, equipe do jornal A Tribuna, funcionários da Imobiliária Jaeger, colegas de trabalho da San Internet, compadres Pippi, amigos e parentes. Foi reconfortante


Publicado em: A Tribuna Regional no dia 23.06.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Sorriso


Convenhamos. Quem não sabe que um sorriso comunica mais informações do que muitas palavras? Desde crianças aprendemos o efeito que um sorriso causa e como ele compra um pai babão ou uma mamãe coruja.
Saber os segredos dos sorrisos em todas as idades e com todos os tipos de pessoas beneficia largamente a experiência interpessoal.
Dentre os tipos de sorrisos, temos alguns que são clássicos, mas que para muitos não passam de apenas sorrisos, quando na verdade eles nos trazem uma avalanche de informações. Sorrir de boca fechada com uma leve inclinação para cima, por exemplo, se não for acompanhado pelo olhar, não é sincero. É como se fosse um gesto de educação ou cinismo, como se quem está efetuando estivesse dizendo que a atitude é por mera educação ou necessidade. As pessoas que praticam esse sorriso normalmente são mais reservadas, mas o sinal mais forte é a sonegação de informações. Como se soubesse de algo que o interlocutor quer, mas que não será dito. Uma demonstração de influência ou poder. Utilizado por políticos ou gente que pertence ao topo da pirâmide.
Sorriso torto não significa defeito físico, significa sarcasmo. São duas informações diferentes em um mesmo rosto, em uma metade os músculos puxam para cima, em outra empurra para baixo. É uma clara demonstração de desdém. Utilizada normalmente por pessoas que ficaram ricas, mas que não possuem classe, por gente metida e que se acha, gente nojenta.
Sorriso com a boca aberta, ou com queixo caído, é o que eu chamo de desesperado por atenção. É o legítimo "olhem pra mim". Comumente utilizado por pessoas que fingem estar sempre felizes e que querem muito a atenção de todos. Todavia, se repararmos apenas nos olhos, perceberemos que estão impassíveis ou mesmo desdenhosos, expondo a falsidade. Precisamos ser extremamente cautelosos com pessoas que costumam utilizar esse tipo de sorriso, pois quando se tenta mostrar algo o tempo inteiro é porque se tem muito a esconder. No mínimo e certamente, insegurança.Sorriso encabulado é aquele em que os homens se sentem o máximo ao verem uma mulher fazendo, pois acreditam que estão abafando e dominando a situação quando normalmente o que ocorre é que a mulher o utiliza justamente para conseguir o que quer como artifício de sedução. É normalmente praticado por mulheres. Há uma leve inclinação com a cabeça para o lado e para baixo, olhar para cima e um sorriso pequeno com a boca fechada sugerindo timidez.
O sorriso aberto é o mais difícil de decifrar, pois algumas pessoas realmente são ou estão felizes e
podem sorrir um dia inteiro, mas há aquelas que estão tentando apenas demonstrar uma felicidade que não existe ou que sabe de alguma coisa que você gostaria de saber. Pessoas famosas costumam utilizar esse tipo de sorriso, principalmente em frente a câmeras ou em fotos. É mais utilizado por homens e expressa algo do tipo "eu sou o máximo" ou "todas as mulheres me querem".Quem mente não costuma sorrir muito, pois mentir exige grande concentração. O sorriso com os lábios unidos em linha reta é usado por quem quer esconder algo. Tente lembrar de alguém que lhe perguntou uma coisa engraçada sua e que você não queria dizer, você sorriu de boca fechada. Eu particularmente acho charmoso esse tipo.
Mas nem tudo está perdido, o sorriso honesto e real existe sim, e vem sempre acompanhado por pés de galinha ao redor dos olhos. O cérebro, quando você ri, envia a informação para o rosto todo, e os músculos das pálpebras se contraem. Esse movimento é involuntário e extremamente difícil de ser forjado, contudo algumas pessoas acostumadas a fingir, fazem perfeitamente.

Minha dica? Sorria sempre que puder, sempre que tiver vontade, de si mesmo ou do que quer que seja, sorrir produz substâncias incrivelmente benéficas ao organismo e queima calorias. Além do que, como li em um para-choque de caminhão, nunca se sabe quem pode estar se apaixonando pelo seu sorriso. Numa dessas o amor da sua vida lhe vê e "tium".
Eu já me apaixonei por um sorriso andando na rua, no ônibus, na escola... Bem... acho que eu não sou parâmetro, né? :D




Publicado em: A Tribuna Regional no dia 16.06.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Geração Y



Não é novidade que gosto de observar os humanos, as coisas, a natureza, a sociedade, as atitudes, enfim, sou um observador inveterado. Talvez por ler mais coisas que a maioria da população, devido aos conhecimentos de leitura corporal e comportamento social, acredito que sou um pouco mais crítico que o normal.
Nessas observações percebi uma característica comum a quase todos os bem qualificados e ambiciosos: ansiedade.
Os profissionais atuais são menos estáveis em seus empregos, e não é por sua instabilidade emocional, ou por desapego a empresa, também não são demitidos, pois são competentes, e entenda-se como competência o conjunto completo. Ocorre que eles buscam empresas com um perfil que saiba aproveitar todo o potencial da multitarefada geração Y.
A grande maioria das empresas existentes hoje ainda são geridas pelo modelo antigo. Técnicas conservadoras de administração ainda vigem. Donos de empresa que acreditam que o funcionário tem que ir falar com o chefe e pedir aumento, enquanto os funcionários se qualificam e esperam que a empresa os reconheça e os valorize, e caso isso não aconteça, como normalmente é feito, eles migram para outra que acene com essa possibilidade.
Isso é um prejuízo gigantesco, pois a perda de conhecimento que a empresa tem não será ressarcida em um espaço de tempo curto. Além do desgaste interno que é claro quando ocorrem evasões.
É impressionante a competência e capacidade dessa nova geração. Embora eu não faça parte dela, (eu acho) acabei me inserindo pela pouca diferença de idade, e sou também um ansioso ambicioso. Mas nunca deixei uma empresa na mão quando saí. Tenho responsabilidade e comprometimento. Também nunca fui demitido, pois sempre procurei fazer o meu melhor.
Mas confesso que tenho medo de disputar vagas com esses novos talentos. São craques, aprendem rápido, são desenvoltos, descolados, inteligentes e produtivos. Os antigos ainda se mantêm pela experiência e maturidade, coisa que os novos ainda terão que conquistar, mas afirmo, sem medo de errar, que em qualquer função nova, criada hoje, por exemplo, os novos deixam-nos da geração passada, no chinelo.
Isso tem seu lado bom, fomentou a qualificação profissional, acordou algumas empresas para o novo mundo. Dell por exemplo tem uma maneira totalmente diferente de gerenciar as pessoas; paga muito, cobra mais ainda, e reconhece. Premia, incentiva, "empurra", cobra, mas faz o profissional utilizar todo o seu potencial, se desenvolver e produzir mais do que em uma empresa tradicional, onde acabaria subutilizado. Isso gera uma reação em cadeia em todo o mercado, em toda a sociedade.
Isso tudo é apenas para explicar que a pressa e a urgência que observei na rua, agora também no interior, têm um propósito. As novas gerações são diferentes, mais estimuladas, mais espertas e mais inteligentes. Precisamos aprender a trabalhar com elas como aliadas e não como inimigas. Precisamos saber valorizá-las, ou as perderemos e precisamos, acima de tudo, identificar o nosso lugar nesse cenário e entender que a convivência é uma necessidade.



Publicado em: A Tribuna Regional no dia 09.06.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco



quarta-feira, 18 de julho de 2012

Lábios




Poucas pessoas sabem a quantidade de informações que é possível auferir apenas atentando-se aos lábios dos humanos.
Por exemplo, situações comuns em flertes são: grandes sorrisos (mostrando os dentes e com a face relaxada); morder os lábios, mas apenas um canto deles (ou direito ou esquerdo inferiores); mostrar a língua, lambendo principalmente o superior ou os dentes; projetá-los para frente, normalmente junto com os seios (bico sexy da Marilyn Monroe). Certamente são apenas indicadores, todavia, são fortes. E quando conjugados, resultam em uma leitura perfeita. Quem convive comigo ou com outros leitores dos sinais do corpo sabem que isso funciona cirurgicamente.
Nesse caso, o flerte é a situação em que você está “negociando” com a outra pessoa, mas que acontece a dúvida cruel do: “será que estou sendo  correspondido?”; “Será que a outra pessoa não está apenas sendo legal?”. Esses sinais lhe ajudam decisivamente.
Quando os lábios estão fechados em tensão sugerem disposição (precede uma afirmação ou atitude positiva, algo do tipo... “bora pra balada”); quando apertados, agressão ou concentração (quem estuda ou trabalha com programação costuma apertar os lábios); quando mordido nos superiores, ou no meio da parte inferior indica nervosismo, vontade de não falar algo, apreensão, hesitação (esse é clássico, enquanto interroga alguém sobre algo que a pessoa não quer falar, invariavelmente a mordidinha no lábio escapa).
Esse caso pode acontecer na situação da “negociação” também, caso a pessoa não tenha certeza se deve ou não avançar o sinal.
Molhar os lábios com a língua indica indecisão (tem gente que de tão indecisa desenvolve o cacoete de lamber rapidinho o lábio enquanto fala), mesmo que mostrar-se intencionalmente fazendo signifique tentativa de sedução (e quem não sabe que aquela passada de língua sexy da mulher gato significa isso?!). Importante verificar se a pessoa está perto de algo que goste muito, pois alguns tem o hábito de lamber os lábios nessas situações, normalmente comida, ou quando comeram algo gostoso (situação clássica em desenhos animados). É necessário verificar, no entanto, se a pessoa tem o hábito de lamber por estar com a boca seca, essas normalmente estão com a boca rachada e grandes chances de caírem no caso da indecisão.
Manter a boca aberta e a mandíbula caída indicam nervosismo, surpresa, assombro ou na melhor das hipóteses pressa (a clássica cena de cair o queixo por uma surpresa). Mantê-la fechada com os lábios unidos, principalmente quando conversando com alguém, significa calma e autoconfiança (pessoa séria e tranquila).
Morder os lábios repetidamente, contorcê-los ou quando eles estiverem trêmulos significa ansiedade ou nervosismo (alguns até gaguejam quando o lábio treme).
Lábios úmidos e avermelhados normalmente são vistos pelos homens como sinônimo de saúde e feminilidade além de mimetizar facialmente os órgãos genitais femininos com o avermelhado que significa que ela está sexualmente excitada. Zoólogos acreditam que os lábios femininos evoluíram como espelhos de suas genitálias, conhecido como eco genital permanente. Isso explica o porquê das mulheres utilizarem o subterfúgio do batom há tantos anos. Explica também o porquê do batom vermelho ser sinônimo de sexualidade (não só o vermelho, rosa, roxo...). Explica também porque muitos homens acham mulheres de batom ou gloss sexys.
Quando homens se referem a bocas femininas utilizam adjetivos como carnudos, sexys e convidativos, ou seja, mais literais. Já as mulheres quando o fazem, em referência aos masculinos, na verdade referem-se à atitude masculina como protetor ou carinhoso.
Colocar coisas contra os lábios ou levar coisas a boca representa uma referência da infância, uma tentativa de reviver aquela sensação de proteção existente na fase de bebê que ainda mama no peito. Isso significa que há sempre uma necessidade de autoafirmação por trás desses gestos. Os fumantes  são um bom exemplo disso, adolescentes que colocam canetas e lápis na boca na fase do colégio, bebês que chupam o dedo... Gente que rói unha também se enquadra aqui.
Colocar a mão nos lábios tapando-os é uma ação clara em crianças ao mentir. Quando adolescente, já não é tão evidente e mesmo que a intenção inicial seja colocar a mão na boca, o gesto que acontece é passar os dedos levemente ao redor dos lábios. Os adultos colocam a mão no nariz, pois o instinto é ainda mais rápido que o de uma criança de levar a mão a boca, mas antes de encerrar o gesto a mão muda a rota e vai até o nariz. Gesto imortalizado por Bill Clinton. Isso ocorre, pois o cérebro inconscientemente instrui a pessoa a levar a mão à boca com o objetivo de evitar ser descoberta.
Os casos clássicos conhecidos por todos e inclusive utilizados em chats, ou caricatamente em desenhos animados são:
Fazer bico  :>  – birra,  manha, contrariedade; 
Com os cantos para cima :) – feliz, alegre, satisfeito;
Com os cantos para baixo :( - triste, desapontado, insatisfeito
Mordendo os lábios - raiva
Lábios presos entre os dentes :# - não querer falar, guardando segredo
Agora, pare e pense comigo, se apenas a boca de uma pessoa já diz tanto de sua personalidade, pode-se imaginar quando começa a desvendar os outros segredos. Como eu disse uma vez, chega a ser covardia.


Publicado em: A Tribuna Regional no dia 26.05.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Lei seca? Para quem?

Em 19 de junho de 2008 foi aprovada a Lei 11.705 modificando o Código de Trânsito Brasileiro. Apelidada de "lei seca", proíbe o consumo da quantidade de bebida alcoólica superior a 0,1 mg de álcool por litro de ar expelido (ou 2 dg de álcool por litro de sangue no exame clínico) no exame do etilômetro (vulgo bafômetro), por condutores de veículos, ficando o condutor transgressor sujeito a pena de multa, a suspensão da carteira de habilitação por 12 meses e até a pena de detenção, dependendo da concentração de álcool por litro de sangue.
Apesar de não ser permitida nenhuma concentração de álcool, existem valores fixos, prevendo casos excepcionais, tais como medicamentos à base de álcool e erro do aparelho que faz o teste. A concentração permitida no Brasil é de 0,2 dg de álcool por litro de sangue, ou, 0,1 mg de álcool por litro de ar expelido no exame do bafômetro.
Sob pressão do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em 16 de novembro de 2011, entrou em análise um projeto para endurecer a Lei Seca. O projeto determina que dirigir sob efeito de qualquer nível de álcool passa a ser considerado crime e determina que a prova contra quem se recusar a fazer o bafômetro pode ser feita através de testemunhas, vídeos ou imagens. Na prática, tanto uma pessoa que dirigir após comer um bombom de licor, quanto outra que está, realmente alcoolizada estarão cometendo um crime.
Uma noite fui jantar em uma pizzaria em Santo Ângelo. A mais bem conceituada e cara da cidade.
Chamou-me a atenção que todos os ocupantes da mesa em frente, todos muito bem vestidos e educados, estavam bebendo vinho. Achei estranho, pois não estava frio, então o fato sobressaiu ante o restante das pessoas presentes no estabelecimento que estavam bebendo algo gelado.
Quando perguntei para quem estava comigo se os conhecia, obtive resposta afirmativa. Desse
momento em diante, essa pessoa, que me conhece muito bem e já convive comigo faz alguns anos, começou a se portar de forma diferente. Como se estivesse preocupada, pressionada, ameaçada, coagida...
Imagine-se jantando em uma pizzaria com alguém que convive há muito tempo e de repente essa pessoa começa a agir diferente, de uma forma como nunca havia visto antes. Pois foi o que aconteceu comigo.
Eu, como bom curioso que sou, não sosseguei até identificar o motivo de tal atitude. E qual a minha surpresa quando fiquei sabendo que as ilustríssimas pessoas da outra mesa eram os juízes que atuam em nossa cidade? Como a pessoa que estava comigo advoga, entendi que a esquiva referia-se a evitar eventuais complicações profissionais.
Lugar comum que os advogados tenham receio em se interpor contra qualquer juiz, afinal de contas, teriam seu trabalho impossibilitado.
Mas o foco desse texto não é esse. O foco é o fato de juízes, personalidades públicas que deveriam ter a obrigação moral de dar o exemplo, visto que julgam a população, estão feito cavalo em 20 de Setembro para as leis e as regras.
Não raro verificar pessoas dessa classe infringindo as mesmas regras as quais eles deveriam zelar. O que quero dizer com isso é que todos saíram, após beberem muitas garrafas de vinho, dirigindo. Ou seja, a lei é para os humanos. Os que se consideram Deuses não precisam segui-la, afinal de contas estão acima disso.
Não fiquei esperando para confirmar, não foi necessário, estavam com as chaves dos carros em cima da mesa e questionei gente que frequenta os mesmos lugares que estes e que me garantiram já terem presenciado um sem número de vezes.
O que devo presumir a respeito de um juiz que bebe e dirige? Que ele não se importa em matar uma criança que, pelas 22h30min possa eventualmente atravessar em frente ao seu carro fazendo com que ele precise de valiosas frações de segundo em raciocínio e evite o atropelamento.
Que ele não se cinge perante a lei? Que não precisa cumpri-la? E se não segue uma simples assim,
consequentemente deve dobrar-se a corrupções, sonegações, prevaricações ou até crimes contra a vida, quem sabe?
Na verdade, posso presumir as piores coisas possíveis de alguém que deve zelar pelo cumprimento justo e correto da lei, mas que não o faz na particularidade.
Sabe o que é tão grave quanto o próprio ato desses dissimulados? É que todas as pessoas com as quais comentei sobre esse fato, e também quando postei na rede social, orientaram-me não falar ou fazer qualquer coisa a respeito, pois eu sofreria represálias.
Isso é o cúmulo e extrapola a passividade da indignação conformista coletiva. Então devo calar-me ante um absurdo desses por temer que caso algum dia eu precise que essas pessoas exerçam seu trabalho corretamente, elas o farão prevaricadamente e com obliquidade?
Lastimo a covardia daqueles que vivenciam cenas assim e fazem coisa alguma. Mas ao mesmo tempo questiono-me. O que posso fazer a respeito disso?
Mesmo que eu houvesse filmado, e que tenha testemunhas, o que acham que acontecerá?
Acompanhem-me até o limite, bem mais longe. E se eu desse voz de prisão para qualquer dessas pessoas, conforme a lei contempla?
Desafio os Magistrados a responderem-me com alguma solução, mas sem demagogias. Os que não possuem conduta ilibada, abstenham-se da resposta, já que não o fazem com a bebida.
Instigo também a população a enviar sugestões. 










Publicado em: A Tribuna Regional no dia 19.05.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco