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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Casamento


Tenho um primo que foi tocado pelo amor. Mas daqueles verdadeiros e arrebatadores onde a paixão não lhe abandona. O relacionamento findou e ele ainda não se curou. Ele não acredita no matrimonio. Vê o copo meio vazio em uniões. Argumenta que é uma instituição falida. Primeiro que não podemos comparar os relacionamentos atuais com os antigos. Os tempos mudaram, as pessoas mudaram, os relacionamentos mudaram e consequentemente as uniões também. A todas as pessoas que apedrejam o casamento e a esse primo que amo muito e que possui um coração tão grande e forte, com tanta gente e sentimentos dentro que literalmente mal dá conta do recado, tenho algumas considerações a fazer. Estou casando, juntando as escovas de dente, ou no vocabulário dele, me enforcando. Estou no que ele chama de corredor da morte, e estou feliz. Ok, sou louco, doido varrido como todos asseguram, mas não por isso. Estou aqui para assegurar que o amor existe ainda, a paixão também, os bons sentimentos idem. Valores e caráter não se extinguiram. Respeito é utilizado por quem sabe de sua importância. Dizer que todos os seres da face da terra negligenciaram seus valores mais caros em detrimento de uma causa superficial é, no mínimo, um ultraje. Os humanos ainda sentem, acreditam, têm fé e esperança. Querem ter uma família feliz com filhos e amor. Uma das pessoas que mais admiro, meu pai, ainda quando eu era pequeno ensinou-me que um relacionamento dura apenas se o casal for inteligente. E eu aprendi quando eles se separaram depois de 50 anos de casados que além da inteligência é necessário Q.E. (quociente emocional), para conseguir dialogar. Há algumas situações as quais eu chamo de momento Mastercard como deitar na cama e encaixar os corpos, aquecer-se mutuamente no inverno, sorrir de besteiras, poder ser sincero e honesto em coisas delicadas, achar belo o rosto inchado pela manhã, esfregar os pés automaticamente ao mesmo tempo, sintonizar-se, conhecer a frequência de tudo, entender que aquele tipo de respiração é nervosismo e que a outra é tristeza, ganhar um upa carinhoso, ouvir palavras de gratidão e carinho, ser presenteado com um sorriso sincero e irradiante que contagia e alegra seu dia e espírito, sentir o cheiro da outra pessoa em você durante o dia, vê-la usando suas roupas, sendo criança, brincalhona, feliz apenas por estar contigo fazendo nada de especial e isso ser recíproco, passear junto, conviver, conversar, trocar ideias, mudar de opinião, ceder, ousar, conquistar, apresentar aos amigos, entre muitas outras, que não tem preço e pesaram para eu decidir pela aliança. Acontece que precisamos encontrar alguém que consiga manter-se calma enquanto estamos brabos, que aceite como somos mesmo que para isso precise ceder em alguma coisa, pois ceder faz parte. Que saiba conversar na nossa linguagem, que respeite nossos princípios, que compartilhe ao menos da maioria de nossos valores, que nos incentive, nos acompanhe, nos apoie, nos auxilie, nos encoraje e principalmente, que tudo isso seja recíproco. Ninguém sai de um relacionamento como entrou, sempre mudamos, evoluímos, aprendemos, melhoramos. Isso faz parte do processo evolutivo individual. Levamos coisas da pessoa conosco e deixamos coisas nossas. Os condicionais existem sim, não é uma fusão de personalidade e de dois corpos em um, a individualidade permanece. Se não fumar é importante para mim e ela fuma, ou eu não namoro com ela, ou se já o faço, negocio. Fumei durante 6 anos de namoro, ela aceitou e eu parei apenas por escolha pessoal. Óbvio que é necessário ultrapassar dificuldades por amor. Mas isso não significa que certas condições inexistam. Eu amo minha futura esposa, mas ela que experimente fazer greve de sexo para ver o que ocorre. Ou seja, sexo é uma condição. Não há como testar antes de casar. O que fica subentendido do casamento só é somatizado quando de fato acontece. E é quando se sente isso na pele que as coisas ocorrem. Sair testando os limites dos outros é suicídio matrimonial. O amor cresce com a convivência e ao longo disso aprendemos a zelar. Não há como evitar meter-se na vida do outro pois as vidas nesta etapa são compartilhadas, bem como finanças e decisões. Não é necessário dinheiro e estudo para estabelecer uma união. Tem gente que vive bem na miséria, que não precisa ter para ser, que aceita mesmo e de cara limpa novos desafios por amor, que faz de sua inteligência o suficiente para um diálogo e um bom entendimento. Não há imposição, isso é falácia. Quando um não quer, dois não casam. E a culpa do insucesso não é do casamento e sim das pessoas que não são capazes de permanecer como estavam antes de fazê-lo. Reforço, o que muda é o que fica subentendido. Minha dica é que casem, mas permaneçam eternamente namorados. Fazer-se ouvir faz parte da receita do sucesso. O grande segredo é: Depois de casados, não mudem! Não esperem que o marido mude. Ele não vai mudar. Se você namorou com ele e decidiu casar é porque gostava de como era. Então mudar agora sob que argumento? Não pense que agora pode mandar, que agora ganhou um certificado de autoridade. Não mude! A pessoa gostava de você como vinha sendo e casar não significa que novos direitos são conquistados. A diferença mais importante é que muita gente hoje se respeita demais para continuar com algo que já acabou. E antigamente as aparências importavam mais. Hoje pensamos em nós tanto quanto na pessoa que amamos e temos coragem de encerrar algo que não nos completa. Talvez o casamento hoje seja até mais verdadeiro, claro e saudável que antigamente. Talvez até as pessoas hoje se separem e continuem amigas, coisa que não ocorria no passado. São muitas variáveis a serem levadas em consideração e pesam demais para uma sustentação tão frágil como um comparativo com o que era no passado. Meu conselho: CASE-SE, atreva-se, dê a cara a tapa, esforce-se e de o melhor de si para que dê certo, acredite e só então opine. Poucos vencem, pois poucos tentam até o fim.





 Publicado em: A Tribuna Regional no dia 06.10.2012
Corrigido/editado por @analeticiasilva 
@rjzucco
rodrigo.zucco@terra.com.br 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Campanha

Podem me chamar de louco, mas prestei-me a ficar provocando muitas pessoas que convivem comigo, questionando-as, aplicando a teoria de provocar choque emocional para ler o que seu semblante manifestava espontaneamente.
Comecei questionando todos sobre Steve Jobs, se o admiravam e quantos se identificavam com ele. Depois perguntei se possuíam algo de inovador em si, se consideravam que ao menos uma fagulha do espírito de inovação do guru da Apple fluía em suas veias.
Segundo o dicionário, inovação significa introduzir novidades, renovar, inventar, criar... Ou seja, há uma classe a qual classificamos como normal, e o que foge disso é novidade, novo, inovador.
Quando começou a ser “descoberto” pelas massas, o terceiro sexo era algo inovador. Assim como gêneros musicais, roupas, tecnologias, comidas, nomes... Embora o bom senso não imperasse nessa época.
Importante salientarmos que bom senso é necessário e que cada um tem um gosto. Mas algumas coisas são senso comum. Por exemplo, nomes como Ricardo, Roberto, Rafael, Rodrigo, Daniel, Mario...
Bem, o gênio que criou a saga dos “is” como iMac, iPod, iTunes, iPad e iPhone, optou por atribuir o i de inovação às suas criações e todo mundo achou legal. Mesmo que muitos apenas tenham descoberto agora para que servia essa letra nos nomes.
Quando Jobs iniciou na Apple, muitas ideias suas foram tidas como afrontas, o chamaram de louco, de inadequado e até o afastaram de sua empresa. Depois tiveram que ceder e reaceitá-lo. Imagina o que seria da Apple sem ele? Ou melhor, o que seria se não o tivessem escorraçado durante tantos anos? (ele pediu demissão, mas não poderia ter ficado) Importante ressaltar que esses anos foram cruciais para as empresas de tecnologia.
Fico imaginando ele em sua casa, com sua esposa, e penso se ela agiu com ele da mesma forma como a Apple fez. Fico pensando se ela tinha a competência e o discernimento de enxergar tão longe quanto ele, ou se foi mesquinha, pequena e limitada como os acionistas da inventora do Macintosh. A mãe da primeira filha provavelmente não, pois não ficaram juntos.
E nesse exercício de imaginação vou além e tento desenhar o enredo da cena dessa mente incomparável tentando convencer seus colegas de trabalho de que uma ideia maravilhosa valia a pena assim como discutia com sua esposa em casa quanto a algo que só ele poderia ter pensado.
Então me acompanhem nesse exercício imaginativo e pensem que a esposa dele o abandonou assim como a Maçã por não aguentar mais suas tentativas a frente do tempo, inadmissíveis para alguém tão limitada quanto ela. Quem saiu perdendo no fim das contas? A Apple que ficou sem “o cara” durante uma das melhores épocas da tecnologia? Ou a Pixar que foi inovadora na indústria cinematográfica desbancando na época a tradicional Disney? Ou a esposa que preferiu ficar com alguém que se resigna aos limites tradicionais e ao rotineiro conformismo nada criativo do quotidiano? Será que o grande criador de inovação aguentaria muito tempo com alguém que, ao invés de impulsioná-lo, enraizava-o nas terras duras, secas e inférteis da rotina?
Gosto de acreditar que ele não se prenderia ao que quer que fosse que o limitasse em sua caminhada inovadora. Que ele seguiria tal e qual um paladino em busca de finalmente concluir sua jornada. Empanzino-me de satisfação ao projetar em minha cabeça a cena dele escolhendo um nome inovador para seus filhos e principiando uma guerra que poderia culminar em desquite.
Primeiro veio Roberto, então alguém inovador resolveu ter a coragem de colocar o nome de Roberta em sua filha e todos se chocaram. Falaram que ela sofreria bulling, que seria motivo de chacota no colégio, que fariam piadinhas, que era feio, estranho, que não gostavam. Mas a esposa dessa pessoa provavelmente teve a coragem de perseverar junto com seu consorte e seguiram em frente, abrindo as portas para que hoje lindas Robertas existam e ninguém mais ache estranho, posto que todos acostumaram.
O mesmo aconteceu com Rafaela que veio de Rafael, ou com Daniela que veio de Daniel. O inverso também acontece, como Mario que veio de Maria. Agora pergunto, e se o pai dessas crianças fosse um Steve Jobs que estivesse tentando fazer uma pequena diferença em sua realidade pessoal, tentando mudar o mundo, mesmo que uma pequena parte, no que lhe é possível, e então fosse tolhido?
Ora, Ricarda, que vem de Ricardo, embora ainda soe estranho aos nossos ouvidos, já está virando normal. Mas Ricardo não é um nome feio, já estamos acostumados com ele. Então qual o problema? Por que muitos dizem que não gostam de Ricarda?
Eu respondo. Porque são pessoas que não estão preparadas para mudança, gente que não gosta de inovação, que quer que esse tipo de “coisa” ocorra com os outros. São os que esperam para ver o que acontecerá para então tentarem, experimentarem. São os que nunca serão os primeiros, pois temem o desconhecido, hesitam arriscar-se. São os que vivem na sombra de Drummond.
Então, venho, por meio deste, rogar-lhes apoio para a campanha por Rodrigas. O nome é, antes de mais nada, inovador. Rodrigo não pode, definitivamente, ser considerado agressivo, já que é algo ao qual todos estamos acostumados já de muito. Principalmente, que me socorram e reforcem junto a minha família a qual está tentando fazer tal e qual a cúpula da Apple com o Steve.
Não permitam que essas pessoas de pouca visão inovadora (vou apanhar) me impeçam de manifestar minhas melhores intenções de legado para as gerações vindouras.
E para aqueles que concordam com meus familiares que alegam que Rodriga é esdrúxulo, redarguo que não é, pois é apenas o feminino de um dos nomes mais comuns no Brasil. Apenas não é normal aos seus ouvidos ainda e por isso parece feio. Pura falta de costume, mas esdrúxulo, definitivamente, é uma qualificação errada. Esdrúxulo é Facebuquison, ou Létisgou.
Para Rodriga como nome de minha filha.  :)


Publicado em: A Tribuna Regional no dia 10.10.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Efeito Borboleta

Frequentemente me pego imaginando em como seria minha vida se determinadas decisões tivessem sido tomadas de outra forma, mais ou menos como o filme Efeito Borboleta.
Estava lembrando da minha infância e de tudo que compartimentalizei ou apaguei da memória e não consigo mais ver quando passo o filme da minha vida na tela da mente.
Quando penso nisso, divago quanto ao que teria sido de minha personalidade hoje se eu tivesse sido mais corajoso com as coleguinhas por quem eu era apaixonadinho ou se eu tivesse entendido que estudar a sério realmente me daria um bom futuro.
Como seria se cada decisão tomada e os consequentes aprendizados acumulados que moldam nossos valores, personalidade e caráter tivessem sido diferentes?
Penso que muito do que sou, e também do que deixei de ser, é por influência do mau exemplo que meus irmãos mais velhos, na época ainda pós-adolescentes, me davam. E, consequentemente, eles tiveram o exemplo de alguém que moldou suas personalidades. Assim como meu pai e minha mãe e por aí vai...
E se eu tivesse como voltar no tempo e mostrar uma foto ou vídeo aos meus irmãos e mãe ainda saudáveis deles definhando em uma cama nos últimos dias de vida, ainda jovens e com câncer? E se eles pudessem optar por largar os vícios e cuidar de si a tempo? E se hoje fôssemos uma família unida e completa, todos saudáveis e todos trabalhando juntos em busca de um objetivo comum?
Como seria a influência da vida deles em minha vida? Em minha personalidade? Em meu futuro? E como seria a influência de minha vida na das pessoas com quem convivo?
Todo esse exercício é apenas pra expor que toda e qualquer decisão que tomamos, gera uma consequência não só na nossa própria vida, como na de todos que fazem parte dela, e que é necessário zelo e coerência. Precisamos ser consequentes quanto a qualquer ato, desde dobrar uma esquina para direita ou esquerda até abordar ou não o amor de sua vida numa ocasião inusitada.
Só que isso não é simples assim, pois tem o lado de não deixar a vida passar, de dar a cara a tapa, de permitir as coisas acontecerem e arriscar-se, empreender, autodescobrir-se, enfrentar os medos, ser concupiscente...
A vida é complexa, mas não é tão difícil como muitos pintam. Ocorre que nós a complicamos às vezes. É tudo muito claro para quem tem o coração leve e a mente aberta.
Para dizer também que não devemos desperdiçar as oportunidades da vida, que precisamos tomar cuidado quanto às escolhas que tomamos e principalmente, que devemos cuidar de quem queremos bem.
Por sorte li a tempo -e sensibilizei-me ao fazê-lo- um e-mail que dizia que devemos verbalizar os bons sentimentos aos que amamos, pois nunca sabemos o dia de amanhã. Graças a isso, comecei demonstrar meus sentimentos de forma mais profícua e cobrir minha falecida mãe de "eu te amos", o que me foi muito resignante dois anos depois quando ela faleceu. Tentei fazer o mesmo com meus irmãos, mas como nem tudo depende apenas de nós, consegui apenas com um.
Faço isso com amigos o tempo inteiro, mesmo que uns me olhem atravessado ou sem jeito. Abraço, beijo, cuido, demonstro, xingo, dou lição de moral, aconselho, invado a sala da intimidade sentando bem no meio, cevo um mate e fico pitaquiando. Ainda estou aprendendo a ter a mesma desenvoltura com a família e considero-me mais maduro agora do que jamais fui, e considero-me recém no começo da caminhada.
Então a dica é: ame, demonstre, e exponha-se, pois um pequeno gesto desses pode mudar sua vida completamente, assim como a das pessoas que você ama. Talvez se eu soubesse disso quando criança, eu tivesse conseguido mudar meus irmãos e mãe, né? Vai saber...


Publicado em: A Tribuna Regional no dia 07.09.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Não Julgar

Uma das minhas colegas de trabalho sempre briga comigo alegando que eu julgo as pessoas. Ela defende que não devemos julgar, pois não sabemos qual a realidade de cada um e que o que percebemos necessariamente não é o completo. Eu discordo e explico o motivo.
Estávamos deliberando sobre uma conhecida em comum que, de uma hora para outra começou a maquiar-se, envaideceu, começou a sorrir mais, a vestir-se melhor, etc. O detalhe é que ela é casada. Foi então que eu comentei: "Ela deve estar traindo o marido, pois uma mudança radical assim não acontece sem um motivo".
Pronto, minha colega surtou. Disse que eu venho com essa balela de ler pessoas, que esses estudos neurolinguísticos não tem fundamento e que eu não posso pegar apenas um fato isolado como esse e alegar que a coitada é promíscua. Que eu fico julgando as pessoas e que isso é errado. Que ela não julga e que não devemos julgar. Resumindo, tentou repreender-me como se eu fosse uma criança.
Ofendi-me e redargui. Primeiro que uma mudança brusca em coisas importantes como o comportamento, a autoestima, a vaidade e afins, necessariamente, são desencadeados por algo, quer ela queira reconhecer ou não, ninguém muda sem um motivo. Segundo que todo e qualquer ser consciente julga, faz parte do instinto de sobrevivência.
Estamos permanentemente julgando tudo e todos. Se eu estou andando na rua de noite e vem alguém em minha direção, eu olharei para a pessoa e efetuarei uma avaliação. Isso é automático, líquido e certo. Ou então eu darei a oportunidade para que um marginal me assalte, esfaqueie e assassine simplesmente porque não devo julgar aquele ser mal vestido, mal encarado e com claros sinais de más intenções que avança contra mim?
Avaliamos os comportamentos constantemente. Eu gosto de pessoas inteligentes, logo, sempre avalio os que me cercam e se as considero abaixo de normalidade, já não classifico como potencial companheiro de tergiversação. Notem, isso é um julgamento. Conversei com a pessoa e a julguei burra ou inteligente, seguindo meu próprio critério e parâmetro. E é assim mesmo que acontece em nossa vida.
Eu julgo a empresa em que trabalho, meus parentes, minha consorte, meus amigos, os famosos, os desconhecidos... Quem consegue abstrair e não julgar ao ver outra pessoa praticando um ato reprovável?
Julgar é necessário ou então sofrerei as consequências dessa negligência, que vão desde sofrimento emocional proveniente de pessoas inescrupulosas que estão sempre prontas para tirar algum tipo de vantagem dos imprecatados, passando por falta de zelo na escolha por ambientes salubres e chegando até os amigos ou cônjuges.
Naturalmente selecionamos em nossa vida e isso é essencial. Somos o resultado de um acúmulo de experiências. Se eu sei que maionese estragada provoca dor de barriga, eu tomo mais cuidado quando for comer maionese novamente. Se eu já apanhei por provocar alguém, certamente não mais provocarei pessoas do mesmo tipo. Se eu sei que botar o dedo na tomada dá choque, não mais o farei. Isso diferencia seres conscientes de coisas que não pensam.
Se eu sei que garotas que vestem-se libertinamente, de acordo com minha experiência, não são emocionalmente confiáveis por não saberem o real sentido de fidelidade, e eu quero um relacionamento sério, fundamentado em reciprocidade, lealdade e integridade, certamente quando estiver avaliando potenciais candidatas a namoradas, desconsiderarei esse nicho. E isso é um julgamento escancarado. E não está errado.
Aliás, nem precisamos ir tão longe. Se eu não gosto de pessoas que vestem-se da forma supracitada e vejo uma garota que se porta como alguém que vestir-se-ia assim, certamente eu nem me atreveria.
Assim como homens que gostam de mulheres desbocadas, seguras, decididas e taradas, ao verem uma mocinha encabulada e toda certinha, falando manso e vestindo branco e rosa, sem decotes e com uma "chuquinha" no cabelo, nem perdem tempo.
Julgar faz parte e não está errado, o que precisamos, isso sim, é darmos oportunidade às pessoas e aprendermos a aceitar as diferenças e as pessoas como são. Talvez a pessoa lá do início não estivesse traindo, tudo bem, chega a ser um absurdo, mas não significa que eu estivesse errado. Significa que eu fiz um julgamento pejorativo que servia apenas para denegrir a imagem dela e não para algo produtivo a mim.
No final, talvez essa minha colega apenas queria dizer para julgar apenas quando necessário e quando tiver um propósito produtivo. Mas depois que aprendemos a fazer, pisar no freio é complicado, e isso fica para quem sabe outro texto...


Publicado em: A Tribuna Regional no dia 1.09.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Pai

Cresci ouvindo meu pai ensinar que datas como dia dos pais, dia das mães, dia dos namorados e etc. são comerciais e servem somente para fomentar o comércio. Embora seja verdade que elas aquecem as vendas, no dia dos pais temos apenas uma brisa morna.
E não é porque amamos menos os pais do que as mães ou porque achamos que eles não merecem. Ocorre que a cultura é de que pai impõe limites, encoraja, repreende e recrimina.
Volto a alegar que somos produtos do meio social ao qual estamos inseridos. Nossa sociedade é machista e, consequentemente, aprendemos a ser assim desde que nascemos.
Em uma sociedade com grandes legados patriarcais e predominância da cultura machista, acaba gerando um estereótipo da figura masculina e fazendo com que ela eventualmente não mostre sua face mais doce, faz com que demonstre irresponsabilidade com os filhos e frieza, quando na verdade estão apenas repassando o que aprenderam, de uma forma peculiar, mas repassando.
Isso não significa que não amem tanto quanto as mães, ou zelem, protejam e defendam. Mas no nosso modelo social, tradicionalmente cabe ao pai incentivar as coisas mais perigosas e à mãe acalentar e compreender.
Meu pai nunca foi o que chamaríamos de exemplo em demonstração de sentimentos, mas, depois que cresci, aprendi a entender que debaixo da "casca" havia tanto carinho, amor, zelo, preocupação, afeto e todos os outros bons sentimentos encobertos pela cultura tradicional. Aprendi a ler e entender meu pai e, consequentemente, todos os outros "babões" enrustidos.
Hoje eu percebo que meu pai ensinou-me valores e caráter. Se hoje sou honesto, reto e direito, é porque tive um bom exemplo em casa. Com ele, aprendi a ser forte, corajoso, estudioso. Com ele, aprendi a escrever e desenhar.
Entendi - mediante suas demonstrações e lições práticas - o peso das escolhas e das decisões, o quanto um olhar e uma palavra significam, quanto o silêncio pode falar.
Não tenho dúvidas do amor de meu pai e creio que ele também não tenha do meu. Sinto orgulho em poder dizer, sem medo e de cara limpa, que sou filho do Seu Zucco da Imobiliária Jaeger.
Tenho convicção que os companheiros de Rotary, amigos, familiares e conhecidos concordam comigo e, na verdade, isso não é nada diferente da grande maioria dos filhos que tem o pai como exemplo norteador. O herói particular. A figura basilar da família. A referência como pessoa.
Amo meu pai cada dia mais. Surpreendo-me e admiro-o progressiva e positivamente e acredito que muitos filhos compartilham deste sentimento.
Gostaria de aproveitar essa data comemorativa, especial, para dizer ao meu pai, mas representando todos os filhos e direcionado à todos os pais o seguinte: Pai, eu te amo! Obrigado por tudo. Se hoje sou alguém e tenho méritos e qualidades, tenha certeza que foram inspiradas em ti. Espero ser para meus filhos pelo menos igual és para mim.
Feliz dia dos pais!



Publicado em: A Tribuna Regional no dia 11.08.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Desapego II



Já comentei sobre a dificuldade em trabalhar o desapego de um ente querido, mas eu particularmente sofro muito mais para trabalhar a perda de pessoas vivas.
Enquanto o falecido efetua a passagem e fica claro em minha cabeça que não  há volta e que nada pode ser efetuado para a transformação dessa realidade, uma pessoa que propositalmente abandona minha vida deixa como legado a esperança de um retorno. E esperança, como todos sabemos, não morre.
Mesmo quando acabam-se todas as possíveis e imagináveis chances, a esperança permanece, nem que seja em algum mundo fictício de improváveis circunstâncias criadas em nossa própria mente, ela teima em remanescer.
Se eu gosto muito de alguém a ponto de me permitir ser cativado, de querer cativar, de alimentar esperanças e fomentar planos conjuntos, então certamente ou estou amando, ou estou flertando com esse sentimento já assanhadamente.
Quando amamos alguém, queremos essa pessoa próxima. Próxima de nossos sentimentos, de nossas experiências, de nossa companhia. Queremos trocar vivências e sensações. Compartilhar momentos e pensamentos, formar opiniões e produzir ideias. Queremos uma vida de coisas, um universo infinito de possibilidades, uma estrada longa e firme a ser percorrida, mesmo que sinuosa.
Mas se essa pessoa decide sair de nossa vida, a estrada some nos deixando absolutamente sem chão. Somos anestesiados por sentimentos fortes e contraditórios. Nosso coeficiente emocional sucumbe.
Imagine-se na seguinte situação: Você encontrou a tampa da sua panela; o beijo é o melhor do mundo; o cheiro é irresistível; o sexo é inacreditavelmente bom; a química lhe deixa sem sono, sempre em 220; as conversas lhe interessam, lhe instigam e principalmente fluem divertidamente; a maneira de pensar lhe encoraja e desafia.Então essa tampa não lhe considera a panela ideal e simplesmente vai procurar outro conjunto.
Considere que você não quer, absolutamente, privar-se desse sentimento e mais ainda, não pretende desistir da pessoa que pra você é o amor de sua vida. Nesse caso o correto é tentar e correr atrás. Mas então a tampa lhe informa que não há o que possa ser feito, a panela não lhe interessa hoje, e não lhe interessará no futuro, e lhe sugere acintosamente que vá procurar a sua tampa.
Todo mundo tem uma dose de autopreservação e amor próprio, mesmo que em alguns seja bem pouco. E nessas, apesar da pequena quantidade, é suficiente para fazer recuar e “desistir”. E aí entra a necessidade de trabalhar o desapego.
O amor de sua vida está alí, lívido e lépido, e você não pode mais beijá-lo, tocá-lo, senti-lo nem ter todas aquelas maravilhosas experiências que tinha. Independente se por uma falha sua ou se simplesmente o sentimento acabou unilateralmente, ou mesmo nunca foi  recíproco. O que se faz?
Quem tem um Q.E. maduro, trabalha o desapego de forma sábia e construtiva, mas a grande maioria das pessoas, mesmo que tentem fazê-lo, armazenam em um cantinho especial a esperança de quem sabe, talvez um dia, a tampa perceba que você é a panela ideal e então retorne.
“Quem aqui amigos” nunca remoeu um sentimento esperando que a outra pessoa se arrependesse e retornasse? E normalmente a pessoa não retorna. Mas ela está ali, viva. Não é igual a pessoa que faleceu e que seu cérebro entende que jamais retornará. Sua mente insiste em procurar soluções para essa situação, arranjar uma maneira de contornar a adversidade e conseguir finalmente ser feliz com a pessoa amada.
Essa presença viva de quem se ama e a certeza de que existe uma chance de reencontro é o que faz maníacos assassinarem quem amam por não saberem lidar com a dor da perda. É o que faz pessoas suicidarem-se, desesperarem-se e cometerem devaneios.
Eu preferiria que as pessoas as quais amei e que me abandonaram tivessem morrido. Seria mais fácil aceitar uma morte do que a rejeição. Mesmo sabendo que foram essas rejeições que me fizeram crescer e amadurecer.Tenho esses arrependimentos tão arraigados em meu peito que sinto um frio na barriga ainda quando lembro de algumas coisas de minha coleguinha de primeira série.
Carrego comigo o peso de cada amor que tive. Os verdadeiros amores nunca foram esquecidos por mim. Apenas comecei a amar outras pessoas mais intensa e profundamente depois. Mas asseguro-lhes, um amor não substitui o outro e o desapego é algo que trabalho diariamente em amplo aspecto.
Recomendo a quem não faz, que o exercite.

Publicado em: A Tribuna Regional no dia 28.07.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Zona de conforto

Uma vez vi uma imagem de um cavalo amarrado a uma cadeira de plástico. E ele ficou parado lá, como se estivesse preso a algo e não pudesse sair. Sua limitação o impediu sequer de tentar puxá-la, e então ele lá ficou, aguardando o dono ou outra pessoa qualquer que viesse libertá-lo.
Quando vi aquilo senti meu estômago revirar-se. Fui empático e pensei em quantas e quantas vezes em minha vida estive no lugar daquele cavalo. Pensei também imediatamente em uma boa porção de gente que se encontra atualmente em posição semelhante.
Como é curioso observar-nos como se estivéssemos em um jogo de 3ª pessoa. Quanta coisa está na nossa frente e não vimos, ou por nossas viseiras que impedem que enxerguemos para o lado e nos forçam a olhar apenas para frente, ou pela nossa compreensão limitada de vida e de situações.
O exemplo do cavalo é clássico. Ele está preso apenas à sua mente, pois a cadeira é tão leve que ele poderia tranquilamente passar o resto da vida carregando-a a todos os lados sem problemas. Ou até a corda poderia nem estar amarrada, e sim apenas enrolada. Ou mesmo a cadeira poderia quebrar-se facilmente ao primeiro puxão. Mas ele sequer tenta, e consequentemente fica ali, parado, esperando...
Quanta gente prefere ficar presa a uma cadeira de plástico a quebrar a barreira da zona de conforto e usufruir de sua vida a todo pulmão aos galopes? Quanta coisa deixamos de fazer por nos acharmos incapazes ao menos de tentar? Quantas vezes ficamos amarrados apenas a uma condição moral ou psicológica, mas de base duvidosa ou no mínimo questionável?
O que nos leva a sequer tentarmos sair?
A resposta é Zona de Conforto, e apenas duas coisas lhe tiram dela. Mesmo que essa zona não seja confortável no sentido literal da palavra, ela nos acorrenta de forma a impedir-nos sequer de tentar. Quanto às duas coisas, são:
-Uma paixão muito forte, daquelas arrebatadoras e avassaladoras, que entram em nossa mente e coração feito um furacão, "esculhambando" toda a casa e nos deixando sem chão.
-Uma decepção muito grande, de "cair os butiás do bolso"; de trocar de ponta; de perder o rumo, a fé e a esperança; que nos faça perder a crença no que quer que seja, principalmente quando acompanhada de rancor, raiva e mágoa.
Quando essas coisas não acontecem, somos sugados ao conformismo paradoxal do cavalo e a cadeira.
Precisamos arrebentar essas amarras normalmente sociais, excomungar o conformismo de nossas entranhas e nos forçarmos a enxergar além da curva, da viseira, da cadeira. A vida é muito mais do que apenas a situação momentânea. A vida é um oceano e as opções são gotas que podemos escolher nas esquinas dos momentos. Mas para isso é necessário estar disposto a abrir mão de conformismo. É basilar que haja inquietação no espírito, comum em arianos como eu.
Experimente expandir sua visão em todas as situações de seu dia, desde o momento que vai abrir um pinhão, com faca, com a boca, começando por uma ponta ou por outra, rasgando no meio ou tirando as camadas da casca até uma complexa discussão matrimonial/familiar. Os resultados são assombrosos.

Publicado em: A Tribuna Regional no dia 14.07.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Ignorância não é uma opção


Gosto de assistir ao noticiário durante o almoço. Adquiri o hábito por estudar a noite ao longo de muito tempo.
Como esse é um dos canais mais rápidos de se ter uma visão geral da fotografia atual da sociedade a qual pertencemos, considero como um resumo do contexto.
Esses dias, estava almoçando entre amigos com a televisão ligada e, como sempre, de ouvido ligado nas noticias no intuito de me atualizar. Ocorre que, mais uma vez, ouvi uma expressão que já é lugar comum para muitos, e que me fez, novamente, pensar a respeito.
Mais de uma das pessoas que estavam comigo manifestaram insatisfação em ter que ouvir a respeito das atrocidades, crimes, tragédias e outras coisas ruins que todos os dias informam nos meios de comunicação.
Tentei argumentar alegando que o fato de não ouvirmos, não impede que essas coisas aconteçam, mas fui surpreendido com a afirmação de que, se não soubermos, não ficaremos tristes.
Depois disso fiquei "matutando". Mas então, o fato de eu não ler jornais, nem assistir televisão ou ouvir rádio, ou até mesmo me isolar de qualquer canal que possa trazer esse tipo de informação acalentará meu coração no que concerne a tristeza pelos infortúnios ocorridos?
A ignorância não é uma opção. O fato de eu ignorar esses acontecimentos não impedirá que eles ocorram ou tampouco evitará que eles me afetem, nem mesmo indiretamente. A violência continuará existindo e as mortes continuarão ocorrendo.
A diferença é que não terei mais o valioso e necessário conhecimento para evitar que isso ocorra comigo.
A alienação quanto ao que ocorre no mundo em que vivemos não é mais admitida na era da globalização. Precisamos estar atentos, vigilantes, cientes e mais ainda, termos uma opinião formada sobre o que recebemos, pois o que faremos com isso será de relevância incomensurável para a sociedade como um todo.
Precisamos abandonar esse tipo de atitude negligente de avestruz, afinal de contas, o buraco nunca protegeu seu corpo.
Talvez em âmbito pessoal, no que se refere a relacionamentos interpessoais, no trabalho, com cônjuges, a ignorância seja uma bênção e o ditado "felizes dos ignorantes" vija, pois muitos preferem acreditar numa fidelidade ilusória a ter que encarar a triste verdade da perfídia.
Eu afirmo que o caminho da felicidade passa, necessariamente, pela verdade, pois defendo que a ignorância não é uma opção na vida daquele que pensa inteligentemente.
Agora, se a busca é por uma fuga da realidade dura, então enganar-se é uma opção a ser considerada com relevância, pois como citei em um texto anterior, as pessoas não estão preparadas para verdade.



Publicado em: A Tribuna Regional no dia 07.07.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Teoria dos Tomates


 Tenho uma teoria sobre como as pessoas se comportam quando encerram um relacionamento.
Como já citei várias vezes, adoro prestar atenção nas pessoas, mania provavelmente de criança que ainda não abandonei. Sabe quando alguém passa e a criaturinha filha olhando descaradamente, sem nem disfarçar? Pois é, assim sou eu no dia a dia, depois de adulto.
Venho reparando já há algum tempo como as pessoas escolhem tomates no supermercado, ou em qualquer estabelecimento que os venda, e percebi que muitos ao identificarem um estragado ou em ponto de maturação diferente do desejado, colocam-no delicadamente em algum canto e continuam a procurar algum de seu agrado.
Já outras pessoas quando identificam algum que não se enquadra no seu critério, jogam-no para um canto não se importando se ele vai bater, machucar, estragar ou de que forma vai ficar para a próxima pessoa que vier eventualmente comprá-lo e consumi-lo.
Essa postura de descaso com o tomate - e uso esse exemplo, pois é um dos mais frágeis se comparado a laranjas ou afins - é a mesma postura aplicada pela pessoa na vida. Os humanos são lineares em seu comportamento. Se quando não quero um tomate, jogo-o fora de maneira descuidada ou mesmo negligente e desrespeitosamente, certamente o farei com as pessoas que eu descartar de minha vida, com empregos que eu sair, com tudo que eu trocar, até com roupas.

A maneira como trato um simples legume denuncia minha postura perante outras pessoas. É obviamente evidente que se eu não cuido de um tomate quando o jogo para um canto é porque eu não estou preocupado com o próximo consumidor. Seguindo esse raciocínio, quando eu acabar um namoro, atirarei o "produto" que não quero mais em um canto sem me preocupar com o "outro consumidor", mesmo que esse seja a sociedade.
Então tenho como entender o comportamento de uma pessoa e o respeito que ela tem pelos outros apenas visualizando-a escolher tomates.
Afirmo com propriedade, pois tive a coragem e a cara de pau de perguntar para muitas pessoas quando as analisava como elas se comportavam quando acabavam um relacionamento, independente se conhecidas ou não, e algumas me olhavam como se eu fosse um ET.
Experimentem, façam o teste, autoavaliem-se enquanto escolhem tomates e sejam honestos com a resposta quando se perguntarem como agem com as pessoas. Não falha.

Publicado em: A Tribuna Regional no dia 30.06.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Desapego: Parte I



Muitas oportunidades são valiosas para quem gosta de avaliar o comportamento pessoal. Alguns meses atrás meu chefe, em uma reunião, contou o que aprendera em um velório e que poderia se aplicar à empresa. Quando isso aconteceu fiquei pensando com admiração na capacidade que algumas pessoas têm em aprender nas ocasiões e momentos mais inusitados possíveis.
Em abril do ano passado perdi um irmão. Em Junho desse, outro.Em maio, um dos meus melhores amigos perdeu o pai, abruptamente, sem tempo de preparo algum.
Quando um ente querido está enfermo e a passagem é certa, temos tempo de nos prepararmos, de nos despedirmos, de falarmos o que sempre quisemos e protelamos, enfim, temos a derradeira oportunidade de consumar alguns atos que eventualmente venhamos postergando. Mas quando é de "sopetão", um pedaço de nós é tirado de forma agressiva e rude, machucando como um corte profundo incicatrizável.
Com doença fica mais fácil nos resignarmos, aceitarmos e trabalharmos o desapego. Aliás, a palavra de ordem em falecimento é justamente essa, trabalhar o desapego. Principalmente por vermos a pessoa querida sofrendo e por sabermos que o fim da dor é o caminho necessário. Quando entendemos o que a morte significa, sabemos que nossos pais um dia morrerão; nossos avós, nossos irmãos mais velhos, nossos tios... Mas ainda assim, irracionalmente nunca estamos preparados para o momento derradeiro.
O motivo? No fundo a resposta correta é que somos egoístas demais para permitir que as pessoas que amamos evadam de nossa vida antes de nós. Independente se a ordem da vida seja essa. Quem inventou essa droga de ordem afinal? Quem disse que eu preciso segui-la?
Queremos passar ilesos dessa dor por nossa existência mundana. Mas somos pequenos e limitados demais para entender a magnitude do universo e o sentido de cada acontecimento e sua ordem. Pior ainda ficamos quando temos que enterrar um filho ou um irmão mais novo. Mas se analisarmos fria e logicamente, voltamos ao egoísmo. Todos tem sua hora, então quem disse que minha vontade de que fosse depois de mim é a correta frente a infinitude de conhecimento da existência universal?
Independente de religião, todos sabemos que a hora da partida chegará para todos, então como bons egoístas e apegados que somos, queremos que nossos filhos vivam muito e além de nossa existência, bem como os parentes mais novos e ainda não aceitamos também que os mais velhos partam, pois a dor da saudade é grande demais. Afinal de contas, eu não terei mais a companhia da pessoa querida, eu não terei mais a oportunidade de vê-la, eu não terei mais a chance de aprender ou falar com ela, eu não... EU.
É nessa hora que precisamos aprender a trabalhar o desapego, a abandonar o "eu" e entender que o curso natural é esse e que todos tem sua hora, independente se EU acho que o tempo estava errado ou curto demais, a hora de cada um é imutável, e só algo muito acima de nós entende.
Esse é um momento de resiliência, de fé, de crença na transcendência, de força. Mas também é um momento de felicidade ao vermos os parentes queridos próximos, de termos amigos e pessoas que amamos nos consolando e nos apoiando.
É um momento onde eu, quando sinto com toda a empatia do meu coração, sofro junto com meu amigo e minha família, lastimo não poder enfiar a mão em seus corações e arrancar aquela dor a unha e infectar o meu para que assim possa diminuir o fardo de quem quero bem. É o momento em que lastimo não poder materializar todo esse pesado e triste sentimento em uma cruz pesada e postar-me ao lado de quem está sofrendo e carregá-la junto, aliviando-a e acompanhando em tão delicado e particular momento.
E embora nada disso possa ser feito, o simples fato de estarmos ali, ao lado, apenas junto, ou chorando junto, falando besteiras, até mesmo o que não deveria ser dito, ainda assim, estamos fazendo uma diferença permanente, estamos escrevendo em pedra e consolidando algo que jamais será apagado. Construindo uma ponte maciça e larga, de mão dupla e que nos diferenciará de um conhecido.
Estamos aprendendo em um velório. Amadurecendo como pessoas. Consolidando amizades. Entendendo a força e a necessidade de trabalhar o desapego e o egoísmo. Enfrentando a dor da perda e nos obrigando a sermos fortes.
Meus sinceros e profundos sentimentos à quem, como eu, perdeu um ente querido recentemente.

PS: Aproveito a oportunidade para agradecer o carinho de todos que enviaram palavras de conforto pelo celular, facebook, orkut, skype, msn, twitter, e-mail, bem como aos que ligaram, e aos que desconsideraram meu conselho de nao ir ao velório entendendo que minha preocupação era evitar terem que presenciar um ambiente tao triste, preocupando-se mais com meu conforto do que com minha empática preocupação. Especial aos que se fizeram presentes de coração além de qualquer outro canal como a familia Finger e Brustolin, equipe do jornal A Tribuna, funcionários da Imobiliária Jaeger, colegas de trabalho da San Internet, compadres Pippi, amigos e parentes. Foi reconfortante


Publicado em: A Tribuna Regional no dia 23.06.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco