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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Para bom entendedor

Como eventualmente releio meus textos, um dia desses retomei a leitura de um que falava sobre tomates. Então pensei que se colocarmos os tomates na tomada, certamente levaremos choque. Mas como saber enquanto não tentarmos? Que adianta todos dizerem que colocar tomates na tomada provoca choque se eu ainda nem cheguei perto disso. Ora, tomada dar choque, se o metal fica lá para dentro...
Mas ainda falando dos tomates e do choque, isso acontece porque a energia, que é a mesma que provoca faíscas nas antenas das pipocas dos micro-ondas, faz o micro explodir, quebra os pratos de vidro, é conduzida por qualquer coisa com matéria emocional.
E se a velocidade do liquidificador ficar armazenada com a mesma energia motor enquanto for ao copo e depois ao estômago? Fica aquela sensação de que tudo está girando, como se tivessem pássaros se afogando ali. Mais ou menos como ocorre quando se mexe uma panela com comida.
Interessante não acha? Tanto quanto o fuço do porco, o rabo, os olhos, as patas e o que mais interessar aos mais peculiares paladares enquanto boiam num bom e empanzinante banquete de feijoada.
O chifres não vão aí, mas precisam ser citados. Porco não tem chifre? Hum... creio que todos tenham ao menos propensão a tal fatalidade. Mas mesmo que não entrem em um bom e farto prato caseiro, quem sabe em alguma confraria aparece um ou dois. Mesmo porque é tempero certo para muitos comilões.
E a melancia grande que ninguém come sozinho é o principal alimento utilizado com esta especiaria oriunda mais de comerciantes de coração, moral e índole duvidosa do que de camponeses que plantam e semeiam com carinho suas modestas hortas.
Pode ser chamado perfeitamente até de uma faca de três gumes, que como todos conhecem possui três fios, e corta em todos, e machuca sempre no final das contas.
Porque o pinhão tem casca grossa e é difícil tirar a semente de dentro, e mesmo que o faça, se não estiver assado ou cozido, não poderá ser consumido. Ao contrário da frágil pitanga cujo vento mais assanhado já força seu despencar da árvore. O primeiro embora saboroso, é trabalhoso e estufa; a segunda é delicada, frágil, macia e doce.
Cada um usa a tática que melhor lhe favorece, a pitanga bem colorida e doce; e o pinhão bem rijo e com casca, mas com uma semente de sabor incomparável.
Nada é tão óbvio quanto a cocacante refrescóla dos adolescentes apaixonados, nem tão complexo quanto a estratégia Kasparoviana dos adultos.
Tudo faz o maior sentido e falar muito, falando nada e dizendo tudo é, incomensuravelmente mais difícil do que simplesmente falar o que pensa em claro português.
Parafraseando o Chaves, só os inteligentes podem ver. Ou quem sabe os loucos que nem eu. Pois como diria um velho deitado, um dia é da calça e outro do calçador, e há malas que vão para Belém. Ou seja, para o bom entendedor, meia pa ba.
E tudo foi dito claramente como água, mas os porcos nunca entenderam o valor das pérolas.
Quem não entendeu, é porque não leu com malícia suficiente.

Publicado em: A Tribuna Regional no dia 20.10.2012
Corrigido/editado por @analeticiasilva 
@rjzucco
rodrigo.zucco@terra.com.br

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Ninguém é uma Ilha

Segundo o poeta John Donne, do século 16, nenhum homem é uma ilha, e eu concordo. Tudo bem que somos todos produtos do meio e como tal sofremos influências sociais, as quais moldam nosso caráter, mas também somos inteligentes o suficiente para sabermos que todo ser humano é lapidável e pode aprender, crescer, mudar e evoluir quando achar que deve.
Ocorre que vivemos em uma época de insatisfação e infelicidade, pois fomos ensinados a consumir, a ter, a ir pelo mais fácil e quando não conseguimos isso em alguma instância, nos deprimimos. Aliás, este é um dos motivos pelo qual a depressão é a doença da moda.
Quantas pessoas que você conhece são felizes? Quantas levam a vida em plena alegria? Quantas lhe contagiam com alto astral e raramente ou nunca falam de problemas e coisas ruins? Quantas encaram adversidades como estímulo e desafio? É... hoje em dia as pessoas estão acostumadas a viver a margem da realização, sempre esperando o carnaval chegar. Conheço pessoas que estufam o feito para falar "sou eternamente insatisfeita!", mas e daí? Daí que pessoas assim assistem a vida passar e depois de um tempo, olham para trás com arrependimento. As que se flagraram e resolveram tomar atitudes agora vivem a vida, se arriscam mais, dão a cara a tapa, se aventuram, tentam, fazem, enfim... têm atitude. Algumas apenas se deprimem por não ter uma vida como gostariam e colocam a culpa nisso ou naquilo, mas não entendem que são as verdadeiras responsáveis por seu estado de inércia emocional. Há também as pessoas que sequer enxergam que têm esse problema, vivem uma vida inteira - que já é extremamente breve - crendo que estão certas, mas de fato não vivem.
Não lhe parece inteligente que quando algo não está certo deva ser mudado? A pergunta que deve lhe ter insurgido a cabeça agora é: "Acha que é fácil?" Em momento algum eu disse que atingir a felicidade era algo fácil, mas, convenhamos, o que é mais difícil, atravessar uma vida toda assistindo os cavalos da oportunidade passarem diante dos seus olhos sempre pensando no "e se" e por fim conformando-se num trono de infelicidade quase que permanente com apenas instantes de efêmera felicidade ou arregaçar as mangas e ir a luta?
Perceba que simplesmente ao assumir a atitude de correr atrás da felicidade já fará com que a pessoa encare os momentos com outra postura e isso trará, de imediato, algum resultado positivo. O passado é nostalgia e o futuro uma incógnita, e você não tem nada além do presente para desfrutar. Encare o presente como um presente. Não espere ter dinheiro, ter emprego, se formar, casar, ter filhos, etc., para aí então ser feliz. Quem lhe garante que amanhã terá a mesma saúde? O que vai contar para seus netos? Terá netos sendo uma pessoa vazia?
Bom, voltando ao assunto da ilha, é certo que todos gostam de alguém ao seu lado e eventualmente atrelam a felicidade a isso. Faz sentido e não creio que de fato, uma pessoa se realize se não conseguir compartilhar bons momentos ao lado de alguém que possa amar e se entregar - ninguém é uma ilha. Mas deve-se ser feliz sempre, mesmo antes de encontrar o que chamam de alma gêmea. Só que o "mercado" oferece muita fartura e é mais fácil desistir da pessoa que tem algum defeito e procurar a perfeição em outra do que insistir naquela que, apesar de ter defeitos, tem cumplicidade. Vejo pessoas que são apaixonadas por outras, com uma química que possibilita a quem está perto enxergar faíscas, que se entendem bem com pele, que conversam por horas a fio, que se gostam, mas que acabam se desistindo por não querer ceder, por não saber aceitar ou relevar aquela(s) característica(s) especifica(s), depois acabam procurando as tais qualidades em outras pessoas.
Todo relacionamento é único e tem pontos positivos e negativos, a minha pergunta é: Por que as pessoas não investem nas outras? Por que não insistem? Por que preferem abrir mão a tentar? Por que têm medo de se expor, de sentir, de se entregar, de saírem da casca? Por que enxergam e valorizam mais os defeitos nos outros do que as qualidades? Por que se pseudo-envolvem? Tenho um primo que namorou uns 10 anos, e sempre foi uma bagunça de volta e acaba. Uma pessoa infeliz diria, por que não acaba logo se já viu que não dá certo? Por que não procura outra pessoa? Vejam, esse é o pensamento do ir pelo mais fácil, do mercado com muita oferta. Essas pessoas não entendem que um olhar da pessoa que se gosta é único, que eles estão permanentemente se ajustando, perfeitas metamorfoses ambulantes, e enquanto isso eles vão vivendo felizes. Mas se são felizes, por que acabam? Todo relacionamento tem problemas e a maturidade vem com a experiência. Certamente os problemas resolvidos no passado não tornam a ocorrer. Uma música pra eles significa mais do que para outras pessoas, eles têm a música que toca, um sorvete, um filme, um lugar, um beijo, um cheiro, um momento, um sorriso, um hábito, um apelido... Isso é algo que não tem preço, não pode ser substituído. Percebe que eles possuem "momentos mastercard" a todo instante?
Enfim... quero apenas deixar registrado que se você está com alguém, se entregue, se envolva, faça valer, viva, aproveite, ceda, releve, aceite, beije, cheire, sorria, seja feliz! Não tenha medo de sair da casca e de mostrar quem você realmente é, pois no fim a pessoa que está com você - e aqui se incluem também os amigos - na verdade gosta de quem você realmente é e não de quem diz que é, afinal, você é o que você faz e não o que você fala. Não perca a oportunidade de ser feliz ao lado de alguém que pode lhe fazer feliz por acreditar que algo melhor está por vir, pois pode não vir e você acabar esperando tanto por essa pessoa ideal que vai chegar um momento que você acabará pegando a primeira que aparecer na frente, aceitando todos os defeitos, só pra não ficar mais nesse inferno de solidão.

 Publicado em: A Tribuna Regional no dia 12.10.2012
Corrigido/editado por @analeticiasilva 
@rjzucco
rodrigo.zucco@terra.com.br

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Casamento


Tenho um primo que foi tocado pelo amor. Mas daqueles verdadeiros e arrebatadores onde a paixão não lhe abandona. O relacionamento findou e ele ainda não se curou. Ele não acredita no matrimonio. Vê o copo meio vazio em uniões. Argumenta que é uma instituição falida. Primeiro que não podemos comparar os relacionamentos atuais com os antigos. Os tempos mudaram, as pessoas mudaram, os relacionamentos mudaram e consequentemente as uniões também. A todas as pessoas que apedrejam o casamento e a esse primo que amo muito e que possui um coração tão grande e forte, com tanta gente e sentimentos dentro que literalmente mal dá conta do recado, tenho algumas considerações a fazer. Estou casando, juntando as escovas de dente, ou no vocabulário dele, me enforcando. Estou no que ele chama de corredor da morte, e estou feliz. Ok, sou louco, doido varrido como todos asseguram, mas não por isso. Estou aqui para assegurar que o amor existe ainda, a paixão também, os bons sentimentos idem. Valores e caráter não se extinguiram. Respeito é utilizado por quem sabe de sua importância. Dizer que todos os seres da face da terra negligenciaram seus valores mais caros em detrimento de uma causa superficial é, no mínimo, um ultraje. Os humanos ainda sentem, acreditam, têm fé e esperança. Querem ter uma família feliz com filhos e amor. Uma das pessoas que mais admiro, meu pai, ainda quando eu era pequeno ensinou-me que um relacionamento dura apenas se o casal for inteligente. E eu aprendi quando eles se separaram depois de 50 anos de casados que além da inteligência é necessário Q.E. (quociente emocional), para conseguir dialogar. Há algumas situações as quais eu chamo de momento Mastercard como deitar na cama e encaixar os corpos, aquecer-se mutuamente no inverno, sorrir de besteiras, poder ser sincero e honesto em coisas delicadas, achar belo o rosto inchado pela manhã, esfregar os pés automaticamente ao mesmo tempo, sintonizar-se, conhecer a frequência de tudo, entender que aquele tipo de respiração é nervosismo e que a outra é tristeza, ganhar um upa carinhoso, ouvir palavras de gratidão e carinho, ser presenteado com um sorriso sincero e irradiante que contagia e alegra seu dia e espírito, sentir o cheiro da outra pessoa em você durante o dia, vê-la usando suas roupas, sendo criança, brincalhona, feliz apenas por estar contigo fazendo nada de especial e isso ser recíproco, passear junto, conviver, conversar, trocar ideias, mudar de opinião, ceder, ousar, conquistar, apresentar aos amigos, entre muitas outras, que não tem preço e pesaram para eu decidir pela aliança. Acontece que precisamos encontrar alguém que consiga manter-se calma enquanto estamos brabos, que aceite como somos mesmo que para isso precise ceder em alguma coisa, pois ceder faz parte. Que saiba conversar na nossa linguagem, que respeite nossos princípios, que compartilhe ao menos da maioria de nossos valores, que nos incentive, nos acompanhe, nos apoie, nos auxilie, nos encoraje e principalmente, que tudo isso seja recíproco. Ninguém sai de um relacionamento como entrou, sempre mudamos, evoluímos, aprendemos, melhoramos. Isso faz parte do processo evolutivo individual. Levamos coisas da pessoa conosco e deixamos coisas nossas. Os condicionais existem sim, não é uma fusão de personalidade e de dois corpos em um, a individualidade permanece. Se não fumar é importante para mim e ela fuma, ou eu não namoro com ela, ou se já o faço, negocio. Fumei durante 6 anos de namoro, ela aceitou e eu parei apenas por escolha pessoal. Óbvio que é necessário ultrapassar dificuldades por amor. Mas isso não significa que certas condições inexistam. Eu amo minha futura esposa, mas ela que experimente fazer greve de sexo para ver o que ocorre. Ou seja, sexo é uma condição. Não há como testar antes de casar. O que fica subentendido do casamento só é somatizado quando de fato acontece. E é quando se sente isso na pele que as coisas ocorrem. Sair testando os limites dos outros é suicídio matrimonial. O amor cresce com a convivência e ao longo disso aprendemos a zelar. Não há como evitar meter-se na vida do outro pois as vidas nesta etapa são compartilhadas, bem como finanças e decisões. Não é necessário dinheiro e estudo para estabelecer uma união. Tem gente que vive bem na miséria, que não precisa ter para ser, que aceita mesmo e de cara limpa novos desafios por amor, que faz de sua inteligência o suficiente para um diálogo e um bom entendimento. Não há imposição, isso é falácia. Quando um não quer, dois não casam. E a culpa do insucesso não é do casamento e sim das pessoas que não são capazes de permanecer como estavam antes de fazê-lo. Reforço, o que muda é o que fica subentendido. Minha dica é que casem, mas permaneçam eternamente namorados. Fazer-se ouvir faz parte da receita do sucesso. O grande segredo é: Depois de casados, não mudem! Não esperem que o marido mude. Ele não vai mudar. Se você namorou com ele e decidiu casar é porque gostava de como era. Então mudar agora sob que argumento? Não pense que agora pode mandar, que agora ganhou um certificado de autoridade. Não mude! A pessoa gostava de você como vinha sendo e casar não significa que novos direitos são conquistados. A diferença mais importante é que muita gente hoje se respeita demais para continuar com algo que já acabou. E antigamente as aparências importavam mais. Hoje pensamos em nós tanto quanto na pessoa que amamos e temos coragem de encerrar algo que não nos completa. Talvez o casamento hoje seja até mais verdadeiro, claro e saudável que antigamente. Talvez até as pessoas hoje se separem e continuem amigas, coisa que não ocorria no passado. São muitas variáveis a serem levadas em consideração e pesam demais para uma sustentação tão frágil como um comparativo com o que era no passado. Meu conselho: CASE-SE, atreva-se, dê a cara a tapa, esforce-se e de o melhor de si para que dê certo, acredite e só então opine. Poucos vencem, pois poucos tentam até o fim.





 Publicado em: A Tribuna Regional no dia 06.10.2012
Corrigido/editado por @analeticiasilva 
@rjzucco
rodrigo.zucco@terra.com.br 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Campanha

Podem me chamar de louco, mas prestei-me a ficar provocando muitas pessoas que convivem comigo, questionando-as, aplicando a teoria de provocar choque emocional para ler o que seu semblante manifestava espontaneamente.
Comecei questionando todos sobre Steve Jobs, se o admiravam e quantos se identificavam com ele. Depois perguntei se possuíam algo de inovador em si, se consideravam que ao menos uma fagulha do espírito de inovação do guru da Apple fluía em suas veias.
Segundo o dicionário, inovação significa introduzir novidades, renovar, inventar, criar... Ou seja, há uma classe a qual classificamos como normal, e o que foge disso é novidade, novo, inovador.
Quando começou a ser “descoberto” pelas massas, o terceiro sexo era algo inovador. Assim como gêneros musicais, roupas, tecnologias, comidas, nomes... Embora o bom senso não imperasse nessa época.
Importante salientarmos que bom senso é necessário e que cada um tem um gosto. Mas algumas coisas são senso comum. Por exemplo, nomes como Ricardo, Roberto, Rafael, Rodrigo, Daniel, Mario...
Bem, o gênio que criou a saga dos “is” como iMac, iPod, iTunes, iPad e iPhone, optou por atribuir o i de inovação às suas criações e todo mundo achou legal. Mesmo que muitos apenas tenham descoberto agora para que servia essa letra nos nomes.
Quando Jobs iniciou na Apple, muitas ideias suas foram tidas como afrontas, o chamaram de louco, de inadequado e até o afastaram de sua empresa. Depois tiveram que ceder e reaceitá-lo. Imagina o que seria da Apple sem ele? Ou melhor, o que seria se não o tivessem escorraçado durante tantos anos? (ele pediu demissão, mas não poderia ter ficado) Importante ressaltar que esses anos foram cruciais para as empresas de tecnologia.
Fico imaginando ele em sua casa, com sua esposa, e penso se ela agiu com ele da mesma forma como a Apple fez. Fico pensando se ela tinha a competência e o discernimento de enxergar tão longe quanto ele, ou se foi mesquinha, pequena e limitada como os acionistas da inventora do Macintosh. A mãe da primeira filha provavelmente não, pois não ficaram juntos.
E nesse exercício de imaginação vou além e tento desenhar o enredo da cena dessa mente incomparável tentando convencer seus colegas de trabalho de que uma ideia maravilhosa valia a pena assim como discutia com sua esposa em casa quanto a algo que só ele poderia ter pensado.
Então me acompanhem nesse exercício imaginativo e pensem que a esposa dele o abandonou assim como a Maçã por não aguentar mais suas tentativas a frente do tempo, inadmissíveis para alguém tão limitada quanto ela. Quem saiu perdendo no fim das contas? A Apple que ficou sem “o cara” durante uma das melhores épocas da tecnologia? Ou a Pixar que foi inovadora na indústria cinematográfica desbancando na época a tradicional Disney? Ou a esposa que preferiu ficar com alguém que se resigna aos limites tradicionais e ao rotineiro conformismo nada criativo do quotidiano? Será que o grande criador de inovação aguentaria muito tempo com alguém que, ao invés de impulsioná-lo, enraizava-o nas terras duras, secas e inférteis da rotina?
Gosto de acreditar que ele não se prenderia ao que quer que fosse que o limitasse em sua caminhada inovadora. Que ele seguiria tal e qual um paladino em busca de finalmente concluir sua jornada. Empanzino-me de satisfação ao projetar em minha cabeça a cena dele escolhendo um nome inovador para seus filhos e principiando uma guerra que poderia culminar em desquite.
Primeiro veio Roberto, então alguém inovador resolveu ter a coragem de colocar o nome de Roberta em sua filha e todos se chocaram. Falaram que ela sofreria bulling, que seria motivo de chacota no colégio, que fariam piadinhas, que era feio, estranho, que não gostavam. Mas a esposa dessa pessoa provavelmente teve a coragem de perseverar junto com seu consorte e seguiram em frente, abrindo as portas para que hoje lindas Robertas existam e ninguém mais ache estranho, posto que todos acostumaram.
O mesmo aconteceu com Rafaela que veio de Rafael, ou com Daniela que veio de Daniel. O inverso também acontece, como Mario que veio de Maria. Agora pergunto, e se o pai dessas crianças fosse um Steve Jobs que estivesse tentando fazer uma pequena diferença em sua realidade pessoal, tentando mudar o mundo, mesmo que uma pequena parte, no que lhe é possível, e então fosse tolhido?
Ora, Ricarda, que vem de Ricardo, embora ainda soe estranho aos nossos ouvidos, já está virando normal. Mas Ricardo não é um nome feio, já estamos acostumados com ele. Então qual o problema? Por que muitos dizem que não gostam de Ricarda?
Eu respondo. Porque são pessoas que não estão preparadas para mudança, gente que não gosta de inovação, que quer que esse tipo de “coisa” ocorra com os outros. São os que esperam para ver o que acontecerá para então tentarem, experimentarem. São os que nunca serão os primeiros, pois temem o desconhecido, hesitam arriscar-se. São os que vivem na sombra de Drummond.
Então, venho, por meio deste, rogar-lhes apoio para a campanha por Rodrigas. O nome é, antes de mais nada, inovador. Rodrigo não pode, definitivamente, ser considerado agressivo, já que é algo ao qual todos estamos acostumados já de muito. Principalmente, que me socorram e reforcem junto a minha família a qual está tentando fazer tal e qual a cúpula da Apple com o Steve.
Não permitam que essas pessoas de pouca visão inovadora (vou apanhar) me impeçam de manifestar minhas melhores intenções de legado para as gerações vindouras.
E para aqueles que concordam com meus familiares que alegam que Rodriga é esdrúxulo, redarguo que não é, pois é apenas o feminino de um dos nomes mais comuns no Brasil. Apenas não é normal aos seus ouvidos ainda e por isso parece feio. Pura falta de costume, mas esdrúxulo, definitivamente, é uma qualificação errada. Esdrúxulo é Facebuquison, ou Létisgou.
Para Rodriga como nome de minha filha.  :)


Publicado em: A Tribuna Regional no dia 10.10.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Efeito Borboleta

Frequentemente me pego imaginando em como seria minha vida se determinadas decisões tivessem sido tomadas de outra forma, mais ou menos como o filme Efeito Borboleta.
Estava lembrando da minha infância e de tudo que compartimentalizei ou apaguei da memória e não consigo mais ver quando passo o filme da minha vida na tela da mente.
Quando penso nisso, divago quanto ao que teria sido de minha personalidade hoje se eu tivesse sido mais corajoso com as coleguinhas por quem eu era apaixonadinho ou se eu tivesse entendido que estudar a sério realmente me daria um bom futuro.
Como seria se cada decisão tomada e os consequentes aprendizados acumulados que moldam nossos valores, personalidade e caráter tivessem sido diferentes?
Penso que muito do que sou, e também do que deixei de ser, é por influência do mau exemplo que meus irmãos mais velhos, na época ainda pós-adolescentes, me davam. E, consequentemente, eles tiveram o exemplo de alguém que moldou suas personalidades. Assim como meu pai e minha mãe e por aí vai...
E se eu tivesse como voltar no tempo e mostrar uma foto ou vídeo aos meus irmãos e mãe ainda saudáveis deles definhando em uma cama nos últimos dias de vida, ainda jovens e com câncer? E se eles pudessem optar por largar os vícios e cuidar de si a tempo? E se hoje fôssemos uma família unida e completa, todos saudáveis e todos trabalhando juntos em busca de um objetivo comum?
Como seria a influência da vida deles em minha vida? Em minha personalidade? Em meu futuro? E como seria a influência de minha vida na das pessoas com quem convivo?
Todo esse exercício é apenas pra expor que toda e qualquer decisão que tomamos, gera uma consequência não só na nossa própria vida, como na de todos que fazem parte dela, e que é necessário zelo e coerência. Precisamos ser consequentes quanto a qualquer ato, desde dobrar uma esquina para direita ou esquerda até abordar ou não o amor de sua vida numa ocasião inusitada.
Só que isso não é simples assim, pois tem o lado de não deixar a vida passar, de dar a cara a tapa, de permitir as coisas acontecerem e arriscar-se, empreender, autodescobrir-se, enfrentar os medos, ser concupiscente...
A vida é complexa, mas não é tão difícil como muitos pintam. Ocorre que nós a complicamos às vezes. É tudo muito claro para quem tem o coração leve e a mente aberta.
Para dizer também que não devemos desperdiçar as oportunidades da vida, que precisamos tomar cuidado quanto às escolhas que tomamos e principalmente, que devemos cuidar de quem queremos bem.
Por sorte li a tempo -e sensibilizei-me ao fazê-lo- um e-mail que dizia que devemos verbalizar os bons sentimentos aos que amamos, pois nunca sabemos o dia de amanhã. Graças a isso, comecei demonstrar meus sentimentos de forma mais profícua e cobrir minha falecida mãe de "eu te amos", o que me foi muito resignante dois anos depois quando ela faleceu. Tentei fazer o mesmo com meus irmãos, mas como nem tudo depende apenas de nós, consegui apenas com um.
Faço isso com amigos o tempo inteiro, mesmo que uns me olhem atravessado ou sem jeito. Abraço, beijo, cuido, demonstro, xingo, dou lição de moral, aconselho, invado a sala da intimidade sentando bem no meio, cevo um mate e fico pitaquiando. Ainda estou aprendendo a ter a mesma desenvoltura com a família e considero-me mais maduro agora do que jamais fui, e considero-me recém no começo da caminhada.
Então a dica é: ame, demonstre, e exponha-se, pois um pequeno gesto desses pode mudar sua vida completamente, assim como a das pessoas que você ama. Talvez se eu soubesse disso quando criança, eu tivesse conseguido mudar meus irmãos e mãe, né? Vai saber...


Publicado em: A Tribuna Regional no dia 07.09.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Não Julgar

Uma das minhas colegas de trabalho sempre briga comigo alegando que eu julgo as pessoas. Ela defende que não devemos julgar, pois não sabemos qual a realidade de cada um e que o que percebemos necessariamente não é o completo. Eu discordo e explico o motivo.
Estávamos deliberando sobre uma conhecida em comum que, de uma hora para outra começou a maquiar-se, envaideceu, começou a sorrir mais, a vestir-se melhor, etc. O detalhe é que ela é casada. Foi então que eu comentei: "Ela deve estar traindo o marido, pois uma mudança radical assim não acontece sem um motivo".
Pronto, minha colega surtou. Disse que eu venho com essa balela de ler pessoas, que esses estudos neurolinguísticos não tem fundamento e que eu não posso pegar apenas um fato isolado como esse e alegar que a coitada é promíscua. Que eu fico julgando as pessoas e que isso é errado. Que ela não julga e que não devemos julgar. Resumindo, tentou repreender-me como se eu fosse uma criança.
Ofendi-me e redargui. Primeiro que uma mudança brusca em coisas importantes como o comportamento, a autoestima, a vaidade e afins, necessariamente, são desencadeados por algo, quer ela queira reconhecer ou não, ninguém muda sem um motivo. Segundo que todo e qualquer ser consciente julga, faz parte do instinto de sobrevivência.
Estamos permanentemente julgando tudo e todos. Se eu estou andando na rua de noite e vem alguém em minha direção, eu olharei para a pessoa e efetuarei uma avaliação. Isso é automático, líquido e certo. Ou então eu darei a oportunidade para que um marginal me assalte, esfaqueie e assassine simplesmente porque não devo julgar aquele ser mal vestido, mal encarado e com claros sinais de más intenções que avança contra mim?
Avaliamos os comportamentos constantemente. Eu gosto de pessoas inteligentes, logo, sempre avalio os que me cercam e se as considero abaixo de normalidade, já não classifico como potencial companheiro de tergiversação. Notem, isso é um julgamento. Conversei com a pessoa e a julguei burra ou inteligente, seguindo meu próprio critério e parâmetro. E é assim mesmo que acontece em nossa vida.
Eu julgo a empresa em que trabalho, meus parentes, minha consorte, meus amigos, os famosos, os desconhecidos... Quem consegue abstrair e não julgar ao ver outra pessoa praticando um ato reprovável?
Julgar é necessário ou então sofrerei as consequências dessa negligência, que vão desde sofrimento emocional proveniente de pessoas inescrupulosas que estão sempre prontas para tirar algum tipo de vantagem dos imprecatados, passando por falta de zelo na escolha por ambientes salubres e chegando até os amigos ou cônjuges.
Naturalmente selecionamos em nossa vida e isso é essencial. Somos o resultado de um acúmulo de experiências. Se eu sei que maionese estragada provoca dor de barriga, eu tomo mais cuidado quando for comer maionese novamente. Se eu já apanhei por provocar alguém, certamente não mais provocarei pessoas do mesmo tipo. Se eu sei que botar o dedo na tomada dá choque, não mais o farei. Isso diferencia seres conscientes de coisas que não pensam.
Se eu sei que garotas que vestem-se libertinamente, de acordo com minha experiência, não são emocionalmente confiáveis por não saberem o real sentido de fidelidade, e eu quero um relacionamento sério, fundamentado em reciprocidade, lealdade e integridade, certamente quando estiver avaliando potenciais candidatas a namoradas, desconsiderarei esse nicho. E isso é um julgamento escancarado. E não está errado.
Aliás, nem precisamos ir tão longe. Se eu não gosto de pessoas que vestem-se da forma supracitada e vejo uma garota que se porta como alguém que vestir-se-ia assim, certamente eu nem me atreveria.
Assim como homens que gostam de mulheres desbocadas, seguras, decididas e taradas, ao verem uma mocinha encabulada e toda certinha, falando manso e vestindo branco e rosa, sem decotes e com uma "chuquinha" no cabelo, nem perdem tempo.
Julgar faz parte e não está errado, o que precisamos, isso sim, é darmos oportunidade às pessoas e aprendermos a aceitar as diferenças e as pessoas como são. Talvez a pessoa lá do início não estivesse traindo, tudo bem, chega a ser um absurdo, mas não significa que eu estivesse errado. Significa que eu fiz um julgamento pejorativo que servia apenas para denegrir a imagem dela e não para algo produtivo a mim.
No final, talvez essa minha colega apenas queria dizer para julgar apenas quando necessário e quando tiver um propósito produtivo. Mas depois que aprendemos a fazer, pisar no freio é complicado, e isso fica para quem sabe outro texto...


Publicado em: A Tribuna Regional no dia 1.09.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Pai

Cresci ouvindo meu pai ensinar que datas como dia dos pais, dia das mães, dia dos namorados e etc. são comerciais e servem somente para fomentar o comércio. Embora seja verdade que elas aquecem as vendas, no dia dos pais temos apenas uma brisa morna.
E não é porque amamos menos os pais do que as mães ou porque achamos que eles não merecem. Ocorre que a cultura é de que pai impõe limites, encoraja, repreende e recrimina.
Volto a alegar que somos produtos do meio social ao qual estamos inseridos. Nossa sociedade é machista e, consequentemente, aprendemos a ser assim desde que nascemos.
Em uma sociedade com grandes legados patriarcais e predominância da cultura machista, acaba gerando um estereótipo da figura masculina e fazendo com que ela eventualmente não mostre sua face mais doce, faz com que demonstre irresponsabilidade com os filhos e frieza, quando na verdade estão apenas repassando o que aprenderam, de uma forma peculiar, mas repassando.
Isso não significa que não amem tanto quanto as mães, ou zelem, protejam e defendam. Mas no nosso modelo social, tradicionalmente cabe ao pai incentivar as coisas mais perigosas e à mãe acalentar e compreender.
Meu pai nunca foi o que chamaríamos de exemplo em demonstração de sentimentos, mas, depois que cresci, aprendi a entender que debaixo da "casca" havia tanto carinho, amor, zelo, preocupação, afeto e todos os outros bons sentimentos encobertos pela cultura tradicional. Aprendi a ler e entender meu pai e, consequentemente, todos os outros "babões" enrustidos.
Hoje eu percebo que meu pai ensinou-me valores e caráter. Se hoje sou honesto, reto e direito, é porque tive um bom exemplo em casa. Com ele, aprendi a ser forte, corajoso, estudioso. Com ele, aprendi a escrever e desenhar.
Entendi - mediante suas demonstrações e lições práticas - o peso das escolhas e das decisões, o quanto um olhar e uma palavra significam, quanto o silêncio pode falar.
Não tenho dúvidas do amor de meu pai e creio que ele também não tenha do meu. Sinto orgulho em poder dizer, sem medo e de cara limpa, que sou filho do Seu Zucco da Imobiliária Jaeger.
Tenho convicção que os companheiros de Rotary, amigos, familiares e conhecidos concordam comigo e, na verdade, isso não é nada diferente da grande maioria dos filhos que tem o pai como exemplo norteador. O herói particular. A figura basilar da família. A referência como pessoa.
Amo meu pai cada dia mais. Surpreendo-me e admiro-o progressiva e positivamente e acredito que muitos filhos compartilham deste sentimento.
Gostaria de aproveitar essa data comemorativa, especial, para dizer ao meu pai, mas representando todos os filhos e direcionado à todos os pais o seguinte: Pai, eu te amo! Obrigado por tudo. Se hoje sou alguém e tenho méritos e qualidades, tenha certeza que foram inspiradas em ti. Espero ser para meus filhos pelo menos igual és para mim.
Feliz dia dos pais!



Publicado em: A Tribuna Regional no dia 11.08.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Desapego II



Já comentei sobre a dificuldade em trabalhar o desapego de um ente querido, mas eu particularmente sofro muito mais para trabalhar a perda de pessoas vivas.
Enquanto o falecido efetua a passagem e fica claro em minha cabeça que não  há volta e que nada pode ser efetuado para a transformação dessa realidade, uma pessoa que propositalmente abandona minha vida deixa como legado a esperança de um retorno. E esperança, como todos sabemos, não morre.
Mesmo quando acabam-se todas as possíveis e imagináveis chances, a esperança permanece, nem que seja em algum mundo fictício de improváveis circunstâncias criadas em nossa própria mente, ela teima em remanescer.
Se eu gosto muito de alguém a ponto de me permitir ser cativado, de querer cativar, de alimentar esperanças e fomentar planos conjuntos, então certamente ou estou amando, ou estou flertando com esse sentimento já assanhadamente.
Quando amamos alguém, queremos essa pessoa próxima. Próxima de nossos sentimentos, de nossas experiências, de nossa companhia. Queremos trocar vivências e sensações. Compartilhar momentos e pensamentos, formar opiniões e produzir ideias. Queremos uma vida de coisas, um universo infinito de possibilidades, uma estrada longa e firme a ser percorrida, mesmo que sinuosa.
Mas se essa pessoa decide sair de nossa vida, a estrada some nos deixando absolutamente sem chão. Somos anestesiados por sentimentos fortes e contraditórios. Nosso coeficiente emocional sucumbe.
Imagine-se na seguinte situação: Você encontrou a tampa da sua panela; o beijo é o melhor do mundo; o cheiro é irresistível; o sexo é inacreditavelmente bom; a química lhe deixa sem sono, sempre em 220; as conversas lhe interessam, lhe instigam e principalmente fluem divertidamente; a maneira de pensar lhe encoraja e desafia.Então essa tampa não lhe considera a panela ideal e simplesmente vai procurar outro conjunto.
Considere que você não quer, absolutamente, privar-se desse sentimento e mais ainda, não pretende desistir da pessoa que pra você é o amor de sua vida. Nesse caso o correto é tentar e correr atrás. Mas então a tampa lhe informa que não há o que possa ser feito, a panela não lhe interessa hoje, e não lhe interessará no futuro, e lhe sugere acintosamente que vá procurar a sua tampa.
Todo mundo tem uma dose de autopreservação e amor próprio, mesmo que em alguns seja bem pouco. E nessas, apesar da pequena quantidade, é suficiente para fazer recuar e “desistir”. E aí entra a necessidade de trabalhar o desapego.
O amor de sua vida está alí, lívido e lépido, e você não pode mais beijá-lo, tocá-lo, senti-lo nem ter todas aquelas maravilhosas experiências que tinha. Independente se por uma falha sua ou se simplesmente o sentimento acabou unilateralmente, ou mesmo nunca foi  recíproco. O que se faz?
Quem tem um Q.E. maduro, trabalha o desapego de forma sábia e construtiva, mas a grande maioria das pessoas, mesmo que tentem fazê-lo, armazenam em um cantinho especial a esperança de quem sabe, talvez um dia, a tampa perceba que você é a panela ideal e então retorne.
“Quem aqui amigos” nunca remoeu um sentimento esperando que a outra pessoa se arrependesse e retornasse? E normalmente a pessoa não retorna. Mas ela está ali, viva. Não é igual a pessoa que faleceu e que seu cérebro entende que jamais retornará. Sua mente insiste em procurar soluções para essa situação, arranjar uma maneira de contornar a adversidade e conseguir finalmente ser feliz com a pessoa amada.
Essa presença viva de quem se ama e a certeza de que existe uma chance de reencontro é o que faz maníacos assassinarem quem amam por não saberem lidar com a dor da perda. É o que faz pessoas suicidarem-se, desesperarem-se e cometerem devaneios.
Eu preferiria que as pessoas as quais amei e que me abandonaram tivessem morrido. Seria mais fácil aceitar uma morte do que a rejeição. Mesmo sabendo que foram essas rejeições que me fizeram crescer e amadurecer.Tenho esses arrependimentos tão arraigados em meu peito que sinto um frio na barriga ainda quando lembro de algumas coisas de minha coleguinha de primeira série.
Carrego comigo o peso de cada amor que tive. Os verdadeiros amores nunca foram esquecidos por mim. Apenas comecei a amar outras pessoas mais intensa e profundamente depois. Mas asseguro-lhes, um amor não substitui o outro e o desapego é algo que trabalho diariamente em amplo aspecto.
Recomendo a quem não faz, que o exercite.

Publicado em: A Tribuna Regional no dia 28.07.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Zona de conforto

Uma vez vi uma imagem de um cavalo amarrado a uma cadeira de plástico. E ele ficou parado lá, como se estivesse preso a algo e não pudesse sair. Sua limitação o impediu sequer de tentar puxá-la, e então ele lá ficou, aguardando o dono ou outra pessoa qualquer que viesse libertá-lo.
Quando vi aquilo senti meu estômago revirar-se. Fui empático e pensei em quantas e quantas vezes em minha vida estive no lugar daquele cavalo. Pensei também imediatamente em uma boa porção de gente que se encontra atualmente em posição semelhante.
Como é curioso observar-nos como se estivéssemos em um jogo de 3ª pessoa. Quanta coisa está na nossa frente e não vimos, ou por nossas viseiras que impedem que enxerguemos para o lado e nos forçam a olhar apenas para frente, ou pela nossa compreensão limitada de vida e de situações.
O exemplo do cavalo é clássico. Ele está preso apenas à sua mente, pois a cadeira é tão leve que ele poderia tranquilamente passar o resto da vida carregando-a a todos os lados sem problemas. Ou até a corda poderia nem estar amarrada, e sim apenas enrolada. Ou mesmo a cadeira poderia quebrar-se facilmente ao primeiro puxão. Mas ele sequer tenta, e consequentemente fica ali, parado, esperando...
Quanta gente prefere ficar presa a uma cadeira de plástico a quebrar a barreira da zona de conforto e usufruir de sua vida a todo pulmão aos galopes? Quanta coisa deixamos de fazer por nos acharmos incapazes ao menos de tentar? Quantas vezes ficamos amarrados apenas a uma condição moral ou psicológica, mas de base duvidosa ou no mínimo questionável?
O que nos leva a sequer tentarmos sair?
A resposta é Zona de Conforto, e apenas duas coisas lhe tiram dela. Mesmo que essa zona não seja confortável no sentido literal da palavra, ela nos acorrenta de forma a impedir-nos sequer de tentar. Quanto às duas coisas, são:
-Uma paixão muito forte, daquelas arrebatadoras e avassaladoras, que entram em nossa mente e coração feito um furacão, "esculhambando" toda a casa e nos deixando sem chão.
-Uma decepção muito grande, de "cair os butiás do bolso"; de trocar de ponta; de perder o rumo, a fé e a esperança; que nos faça perder a crença no que quer que seja, principalmente quando acompanhada de rancor, raiva e mágoa.
Quando essas coisas não acontecem, somos sugados ao conformismo paradoxal do cavalo e a cadeira.
Precisamos arrebentar essas amarras normalmente sociais, excomungar o conformismo de nossas entranhas e nos forçarmos a enxergar além da curva, da viseira, da cadeira. A vida é muito mais do que apenas a situação momentânea. A vida é um oceano e as opções são gotas que podemos escolher nas esquinas dos momentos. Mas para isso é necessário estar disposto a abrir mão de conformismo. É basilar que haja inquietação no espírito, comum em arianos como eu.
Experimente expandir sua visão em todas as situações de seu dia, desde o momento que vai abrir um pinhão, com faca, com a boca, começando por uma ponta ou por outra, rasgando no meio ou tirando as camadas da casca até uma complexa discussão matrimonial/familiar. Os resultados são assombrosos.

Publicado em: A Tribuna Regional no dia 14.07.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Ignorância não é uma opção


Gosto de assistir ao noticiário durante o almoço. Adquiri o hábito por estudar a noite ao longo de muito tempo.
Como esse é um dos canais mais rápidos de se ter uma visão geral da fotografia atual da sociedade a qual pertencemos, considero como um resumo do contexto.
Esses dias, estava almoçando entre amigos com a televisão ligada e, como sempre, de ouvido ligado nas noticias no intuito de me atualizar. Ocorre que, mais uma vez, ouvi uma expressão que já é lugar comum para muitos, e que me fez, novamente, pensar a respeito.
Mais de uma das pessoas que estavam comigo manifestaram insatisfação em ter que ouvir a respeito das atrocidades, crimes, tragédias e outras coisas ruins que todos os dias informam nos meios de comunicação.
Tentei argumentar alegando que o fato de não ouvirmos, não impede que essas coisas aconteçam, mas fui surpreendido com a afirmação de que, se não soubermos, não ficaremos tristes.
Depois disso fiquei "matutando". Mas então, o fato de eu não ler jornais, nem assistir televisão ou ouvir rádio, ou até mesmo me isolar de qualquer canal que possa trazer esse tipo de informação acalentará meu coração no que concerne a tristeza pelos infortúnios ocorridos?
A ignorância não é uma opção. O fato de eu ignorar esses acontecimentos não impedirá que eles ocorram ou tampouco evitará que eles me afetem, nem mesmo indiretamente. A violência continuará existindo e as mortes continuarão ocorrendo.
A diferença é que não terei mais o valioso e necessário conhecimento para evitar que isso ocorra comigo.
A alienação quanto ao que ocorre no mundo em que vivemos não é mais admitida na era da globalização. Precisamos estar atentos, vigilantes, cientes e mais ainda, termos uma opinião formada sobre o que recebemos, pois o que faremos com isso será de relevância incomensurável para a sociedade como um todo.
Precisamos abandonar esse tipo de atitude negligente de avestruz, afinal de contas, o buraco nunca protegeu seu corpo.
Talvez em âmbito pessoal, no que se refere a relacionamentos interpessoais, no trabalho, com cônjuges, a ignorância seja uma bênção e o ditado "felizes dos ignorantes" vija, pois muitos preferem acreditar numa fidelidade ilusória a ter que encarar a triste verdade da perfídia.
Eu afirmo que o caminho da felicidade passa, necessariamente, pela verdade, pois defendo que a ignorância não é uma opção na vida daquele que pensa inteligentemente.
Agora, se a busca é por uma fuga da realidade dura, então enganar-se é uma opção a ser considerada com relevância, pois como citei em um texto anterior, as pessoas não estão preparadas para verdade.



Publicado em: A Tribuna Regional no dia 07.07.2012
Editado/corrigido/pitaquiado por: Thiago Severgnini de Sousa
Escrito por:  @rjzucco